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Análise – For Honor

For Honor

For Honor
8.4

Jogabilidade

9/10

Design

9/10

Apresentação

8/10

Pros

  • Sistema de combate complexo e inovador
  • Variedade e distinção entre heróis para escolha
  • Campanha competente
  • Excelente multiplayer

Cons

  • História vazia de substância narrativa
  • Microtransações

Por: Luigi Wagner

Em cada outro ano surge um jogo que, de uma forma ou de outra, apresenta um conceito (ou uma nova versão de um) que acaba se mostrando a solução mais elegante para uma filosofia de design já comumente usada há anos.

For Honor, nova empreitada em uma propriedade intelectual inédita pela Ubisoft (que tem se mostrado cada vez mais inteligente ao apostar em franquias novas ao invés de reusar apenas aquelas já estabelecidas de forma incessante), é uma obra que apresenta aquele que é, potencialmente, o melhor modelo de combate corpo-a-corpo em um game em tempos.

Tomando grande liberdade histórica em sua contextualização narrativa, For Honor nos apresenta a um mundo onde Vikings, Samurais e Cavaleiros coexistem em clima de constante conflito. Quando uma grande catástrofe eleva as condições dos embates a níveis ainda mais grandiosos (forçando as facções a disputarem recursos e territórios), a Comandante de Guerra, Apollyon (responsável pela frente dos Cavaleiros) decide começar um grande jogo de manipulação para forçar os conflitos a eliminarem todos aqueles que ela considera “fracos” para o campo de batalha (incluindo aqueles do seu próprio grupo).

Narrativamente rasa, a campanha de For Honor transparece ser mais um grandioso tutorial para apresentar as mecânicas e facções do jogo do que uma própria exploração daquele universo e de seus habitantes. Não só contando com uma motivação ridiculamente sem noção por parte da vilã da história (que se você parar para pensar um pouco, não faz o menor sentido), o jogo também não faz esforço para retratar seus outros personagens de forma que vá além do caricato. Sem contar também com uma trama política que torne aquela guerra tematicamente interessante, For Honor ao menos acerta ao colocar o jogador no ponto de vista das três facções ao longo da campanha, de maneira que é interessante enxergar a facção rival como vilanesca logo depois de ter acompanhado parte da história através de seu ponto de vista – sendo estes, então, os únicos momentos em que o jogo chega perto de fazer comentários sobre a guerra que sejam filosoficamente interessantes.

Dito isso, a campanha do game não deixa de ser também divertida ao longo de grande parte de sua extensão, contando com batalhas que beiram o grandioso, surpreendendo imensamente em sua escala (o número de personagens em tela ao mesmo tempo é de deixar o queixo no chão). E mesmo que os objetivos ao longo da história consistam essencialmente em versões adaptadas daqueles do modo multiplayer, o game ainda obtém sucesso em estimular o jogador a perdurar até o rolar dos créditos – seja para efeito de treinamento para as eventuais partidas online ou por simples apreciação da grandeza de suas batalhas.

O que faz com que For Honor brilhe em meio a tantos jogos de ação no mercado, porém, é a finesse e a maestria exigidos pelo seu fascinante sistema de combate: simples a primeira instância, a mecânica de embate principal do game se encaixa no clássico arco de “fácil de aprender, complicada de dominar”. Indicando ao jogador por meio de três direcionais na tela a direção para atacar e defender (cima, esquerda e direita), o sistema aparenta ser um tanto raso a princípio. Ao começar a compreender suas nuances e particularidades, no entanto, For Honor demonstra ser um jogo com uma profundidade mecânica muito maior do que inicialmente aparente.

Com múltiplos heróis em cada uma das três facções, o game estimula o aprendizado particular de cada um destes: do timing das animações do próprio herói em uso ou do enfrentado, até o conjunto e o tempo de ataque dos mesmos, o jogo dificilmente passa a impressão de estar lhe punindo por alguma razão que não seja a auto-incompetência.

Nestes cenários, For Honor consegue evocar um sentimento de perigo, nervosismo e urgência que são exaltados justamente devido à assustadora intimidade envolvida em cada embate – especialmente se o indivíduo do outro lado da espada é uma pessoa de verdade.

Não é atoa então que em seu modo multiplayer o jogo se mostre o mais forte e interessante: ao coloca-lo frente a frente com um jogador que pode ou não dominar as habilidades de seu personagem tão bem quanto você, o game consegue manter com consistência uma sensação de antecipação que só é esclarecida quando as espadas já estão se cruzando, gerando então – sem exceção – constantes baques de adrenalina. Com três modos de jogo principal – Dominação, Mata-mata, e Duelo um-a-umFor Honor consegue evocar em cada um destes um sentimento de propósito diferente: se o primeiro se mostra o mais divertido de se jogar casualmente, o último eleva a urgência do sistema de combate do jogo a um estopim, colocando um jogador para enfrentar outro sem pretensões que vão além da aniquilação do oponente – consequentemente, gerando momentos de tensão palpáveis para ambos os lados.

Possuindo também um “meta-jogo” de guerra de facções dividido em rounds e temporadas que se estendem por semanas (e até meses) a fio, o game faz um trabalho relativamente interessante na tentativa de engrandecer as batalhas online ao pintar o retrato de um “conflito maior” (ainda que os resultados das temporadas, por enquanto, se limitem a alterar basicamente alguns pequenos detalhes nos mapas dominados pelas respectivas facções).

Tropeçando ao forçar microtransações em vários dos componentes do multiplayer (de aparatos de customização, ao desbloqueio de habilidades e personagens), For Honor decepciona ao, potencialmente, desequilibrar a luta em favor daqueles jogadores mais apressados e dispostos a pagar “uns trocados a mais” para facilitar a própria vida (ainda que na prática, o desbalanceamento não seja tão grave).

No resto de seus quesitos, porém, For Honor prova ser uma experiência inegavelmente singular no espectro que habita: eficiente ao distinguir cada um de seus heróis e facções uns dos outros (seja pelo visual, habilidades ou mesmo dos locais daquele mundo), o jogo ressalta de forma ainda mais visível a peculiaridade de seu complexo e instigante sistema de combate – um sistema que está fadado a ser copiado, em menor ou maior grau, por outros jogos no futuro.

Com sua relativa parcela de problemas evidentes (como a superficialidade narrativa ou pequenas inconsistências no modo multiplayer), assim como alguns outros trabalhos recentes da Ubisoft, For Honor transparece ser uma planta admirável para o crescimento de uma série maior no futuro – uma que certamente espero ver ganhar outra chance para uma exploração mais completa de seus conceitos centrais.