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Análise – Deus Ex: Mankind Divided

Deus Ex: Mankind Divided

Deus Ex: Mankind Divided
9

História

7.4/10

Jogabilidade

9.4/10

Design

9.8/10

Apresentação

9.4/10

Pros

  • Premissa fascinante que dá margem a discussões sociais relevantes
  • Jogabilidade fluída e afiada
  • Level design fantástico e sistema de progressão revigorante
  • Direção de arte impecável
  • Variedade imensa de formas de se jogar

Cons

  • Trama convoluta e protagonista entediante
  • Modelo de personagens in-game datados

Por: Luigi Wagner

Franquia de imensa importância para os games, Deus Ex, ao lado de System Shock e Thief, foi responsável pela criação e popularização de uma linhagem que mais tarde veio a influenciar a concepção de diversas outras obras (às vezes, com até mais destaque) como as séries BioShock e Dishonored.

Com gênios criativos como Warren Spector, Ken Levine e Harvey Smith por trás do desenvolvimento, tais franquias adotavam como filosofia intrínseca de design a escolha – e não meramente em termos narrativos, mas especialmente no espectro da jogabilidade.

Deus Ex, lançado em 2000 para os computadores, levava esta ideologia em seu cerne, ao colocar os jogadores em um futuro não muito distante (mas no âmbito da história alternativa) onde várias das teorias de conspiração que conhecemos são, de fato, reais (como os Illuminnati ou a Area 51) – no processo nos colocando também no papel de decidir o estilo de se jogar e de ditar ramificações em sua complexa trama.

Depois da fraca sequência Deus Ex: Invisible War (lançada em 2003), porém, a série ficou relegada ao esquecimento por anos, até que em 2011 foi revivida com o bom Deus Ex: Human Revolution pela Eidos Montreal.

Apesar de fazer um trabalho competente em trazer a franquia para a modernidade, porém, Human Revolution pecava ao apresentar uma trama ridiculamente convoluta (que basicamente pendia da compreensão de jargões técnicos daquele mundo para seu entendimento), além de carecer claramente de polimento em suas mecânicas de jogabilidade.

Agora, cinco anos depois, a Eidos Montreal volta novamente com a franquia com o mais novo Deus Ex: Mankind Divided.

A questão é: ainda há espaço para Deus Ex?

HISTÓRIA

Em 2029, dois anos após os eventos decorridos em Human Revolution, reencontramos o mundo abalado pelo “Incidente” – evento que levou à grande parte da população mundial aprimorada (indivíduos com aparatos biomecânicos no corpo) à um colapso mental, resultando na morte de milhões de pessoas ao redor do planeta.

Sem saber a verdadeira razão por trás do ocorrido, a população mundial vive agora em receio de pessoas aprimoradas, criando uma atmosfera de repressão e violência iminente em todos os cantos – estabelecendo um verdadeiro “apartheid mecânico”.

Neste contexto, reencontramos Adam Jensen (Elias Toufexis), que é encarregado por uma unidade especial da Interpol de investigar um atentado terrorista supostamente realizado por um grupo de indivíduos aprimorados.

Apresentando um cenário de conflitos sociais e políticos fascinante para a ambientação de sua trama, Deus Ex: Mankind Divided faz um trabalho imensamente mais competente que seu antecessor em criar tensão durante o curso de sua história.

Estabelecendo uma admirável analogia com conflitos que afligem nossa sociedade contemporânea, Mankind Divided consegue extrair do contexto de repressão aos aprimorados uma determinada verossimilhança devida justamente aos paralelos a questões raciais/religiosas/ideológicas que conhecemos de nossa realidade. Desde o preconceito nas ruas pelos cidadãos ou autoridades, até a tentativa de imposições legislativas contra indivíduos aprimorados, o clima de opressão estabelecido pelo jogo é legitimamente palpável.

Ocasionalmente tal paridade pode parecer forçada (como através de cartazes nas ruas que gritam “Augs lives matter” – referência óbvia ao movimento “Black Lives Matter” nos EUA), assim como é possível enxergar pelo menos parte do outro lado da discussão, pelo simples fato de algumas pessoas decidirem se equipar de aprimorações que sejam, de fato, perigosas para o funcionamento social (como armas, lâminas, dispositivos de invisibilidade etc). Dito isso, no geral, o conflito que guia a trama do jogo consegue sucesso em plausibilidade a nível de surpreendente eficiência.

Infelizmente, a trama central costurada pelo roteiro de Jason Dozois e Steven Gallagher volta a tropeçar no mesmo quesito de Human Revolution : a convolução da mesma.

Ainda que seja infinitamente mais coerente que seu predecessor, a história de Mankind Divided ainda se mostra demasiadamente caótica em sua estruturação, necessitando que o jogador mantenha ciência constante das mais diversas siglas e nomes de corporações conspiradoras – no processo diluindo os elementos que fazem da narrativa interessante em um emaranhado de reviravoltas raramente instigantes.

Da mesma forma, Adam Jensen continua um protagonista absurdamente entediante de se acompanhar: raramente demonstrando algum tipo de reação emocional (seja de seu passado ou aos acontecimentos presentes), o personagem permanece preso em um único espectro do início ao fim da trama, não existindo o menor resquício de um arco dramático em sua história – e se Elias Toufexis ao menos sai um pouco da monotonicidade irritante na voz que vimos em Human Revolution, nunca é para efeito suficiente de retirar o personagem de sua natureza unidimensional.

Caso Mankind Divided tivesse optado por contar uma história mais enxuta e contasse com uma figura protagonista mais interessante de se acompanhar, o jogo poderia ter facilmente atingido um marco narrativo mais envolvente, considerando a fascinante premissa que tem a seu favor.

JOGABILIDADE

Human Revolution (re)apresentava os formidáveis conceitos estabelecidos pelo Deus Ex original com relativo sucesso na maior parte do tempo – porém, com o lamentável empecilho de não estar a par de seus companheiros de gênero contemporâneos na fluidez de sua jogabilidade – resultando na impressão de um jogo que quase chegava a excelência, mas sem atingi-la.

Sendo assim, sua eventual sequência então só precisaria de alguns ajustes e afinamentos para adequar Deus Ex a um patamar de maior merecimento – e é revigorante então perceber que Mankind Divided faz justamente isso.

Novamente mesclando a jogabilidade de um First Person Shooter com elementos de RPG, Mankind Divided possui o diferencial de ser um game indiscutivelmente divertido de se jogar momento-a-momento, costurado à filosofia de liberdade no design pela qual a série é conhecida.

Com mecânicas de tiro prazerosas de se usar, o game pode ser jogado perfeitamente sob uma aproximação stealth (furtiva) ou na base dos tiroteios – com diversão garantida independente da forma escolhida. Não só as armas são muito mais aprazíveis de se disparar, como também há uma variedade muito maior destas, com direito a customizações aprofundadas, além de um arsenal também lotado dos mais diversos gadgets eletrônicos para Jensen usar. Para completar, o sistema de cobertura cover-to-cover aqui apresentado também contribui para uma imensa melhora na movimentação pelos cenários se comparada com aquela vista no último jogo (e o modo arcade, Breach, é efetivo em encorajar a experimentação neste departamento).

Com elementos de RPG novamente entranhados em sua essência, Deus Ex: Mankind Divided também pende nas habilidades aprimoradas de Adam Jensen para amplificação do poder de escolha do jogador. Com uma quantidade e variedade imensa de aprimoramentos a serem escolhidos e evoluídos pelo jogador ao longo das mais de 30 horas de campanha, a forma como o este escolher evoluir os aprimoramentos de Jensen afeta diretamente na forma de se jogar: você pode escolher focar seus aprimoramentos em elementos de combate para maior sucesso durante os tiroteios, ou você pode optar por habilidades como a invisibilidade temporária para passar despercebido por um grupo de inimigos. Da mesma forma, alavancar atributos físicos como a altura do pulo ou então a distância de um dispositivo de deslocamento imediato (ou mesmo as habilidades de hacking) pode ser diferencial para lhe possibilitar, em algum ponto do jogo, utilizar uma aproximação alternativa para sua missão e obter então maior sucesso na execução desta.

Uma das qualidades mais brilhantes de Mankind Divided, porém, está no extraordinário level design que compõem todos os lugares aos quais a campanha lhe leva. Com ambientações vastas e complexas para o desenrolar das missões, Deus Ex é um daqueles games que lhe conferem um forte sentimento de empolgação toda vez que você é apresentado a uma locação nova. Sempre intricadas e multifacetadas, as áreas de Mankind Divided exalam um sentimento de liberdade desigual – de tubos de ventilação escondidos até elevadores em prédios luxuosos, são tantas formas de se infiltrar e percorrer as missões do jogo, que o game nunca deixa de inspirar a exploração calculista dos cenários, ora para estudar e entender precisamente os locais, ora para achar e desvendar pedaços de narrativa espalhados pelos cenários, através de jornais e e-mails hackeados.

Estendendo essa filosofia de amplitude no design dos cenários, o jogo também conta com a cidade de Praga como seu hub world (como era Detroit em Human Revolution), com uma quantidade respeitável de objetivos secundários para se cumprir ali. Além do mais, ao forçar o jogador a ir e voltar com frequência a cidade (que é dividida em seções), este acaba por ganhar um conhecimento ainda maior dos locais, possibilitando o reconhecimento de nuances nestes que mais tarde pode ser aproveitado em missões importantes.

Novamente acenando às qualidades de um RPG, Mankind Divided também conta com uma variedade de escolhas narrativas a serem feitas ao longo de sua história – escolhas estas que, em sua maioria, me fizeram realmente ponderar a respeito, dada a potencial natureza desastrosa das consequências que poderiam provocar. Esse peso narrativo nas decisões acaba por ser um elemento importante em assegurar que o jogador ao menos tente manter a atenção no desenrolar da (mais que ocasionalmente) bagunçada trama.

Deus Ex: Mankind Divided é um game que apresenta ao jogador uma infinidade de formas de se jogar e, ao mesmo tempo, consegue a proeza de fazer com que todas estas aparentem corretas. Apresentando ainda um senso de evolução viciante, o jogo é um daqueles raros exemplos que lhe compelem a recomeçar o modo “New Game+” imediatamente depois de terminar o modo história pela primeira vez.

APRESENTAÇÃO

 

Impecável no estabelecimento visual de seu mundo, Mankind Divided poderia facilmente figurar entre os universos da ficção-científica mais interessantes da contemporaneidade.

Com uma direção de arte minuciosa, a impressão é que todo canto do universo de Deus Ex possui uma história para contar. Desde a concepção magistral da cidade de Praga (com prédios abandonados contrastados com edifícios tecnológicos), a impressionante cidade de Golem (uma espécie de favela isoladora para os aprimorados) e todo e cada apartamento ou locação interior nos cenários, as ambientações de Mankind Divided nunca falham em impressionar. Da mesma forma, assim como em Human Revolution, a paleta de cores do mundo é novamente dominada pelo dourado e preto – escolha genial para exibir o contraste entre as virtudes que as aprimorações oferecem, assim como o lado decadente que estas costumam trazer aos indivíduos que fazem uso delas.

Depois de seu exímio trabalho em Human Revolution, o talentoso Michael McCann volta para compor a fabulosa trilha-sonora de Mankind Divided – com faixas tecno-eletrônicas que fazem uso de uma variedade de instrumentos (de guitarras a sintetizadores), a composição sonora do jogo parece se encaixar perfeitamente no contexto da obra.

No departamento técnico, o jogo também impressiona, especialmente devido ao detalhamento de texturas por todos os cenários – do tecido do casaco de Jensen a superfícies de madeira e metal – vários dos elementos vistos no game conseguem transparecer um fotorrealismo impressionante. Infelizmente, no que toca aos personagens in-game, o jogo deixa a desejar, com modelos datados e sincronização labial inconsistente, estes acabam por serem ainda mais ressaltados se comparados com a beleza dos cenários que os envolvem.

No geral, porém, fica claro que os artistas da Eidos Montreal injetaram paixão em todos os campos da concepção visual de Mankind Divided – criando com efetividade um universo que vale a pena ser explorado.

CONCLUSÃO

Deus Ex: Mankind Divided é o jogo que a franquia sempre mereceu, sendo possivelmente seu melhor exemplar até hoje.

Apesar de contar com uma trama descomedidamente convoluta e um protagonista aborrecido, o game consegue fazer um competente uso da premissa que a embasa – estabelecendo ainda um proficiente paralelo com a realidade contemporânea.

Com um universo excepcionalmente concebido do ponto de vista visual, Mankind Divided é também um ilustre exemplo de design nos videogames: denso, mas consistente, o jogo não deixa de estimular a exploração e a criatividade por um minuto sequer, elevando o conceito de escolha à um nível considerável.

 

Que não tenhamos que esperar mais cinco anos para ver a próxima evolução de Deus Ex.