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Análise – Uncharted 4: A Thief’s End

Uncharted 4: A Thief's End

Uncharted 4: A Thief's End
10

História

10/10

Jogabilidade

10/10

Design

10/10

Apresentação

10/10

Pros

  • Construção narrativa impecável
  • Estudo complexo de personagens
  • Ritmo sublime
  • Jogabilidade afiada, fluída e divertida
  • Visualmente magnifíco

Por: Luigi Wagner

É raríssimo – para não dizer irreal – vermos uma franquia se encerrar por razões estritamente criativas.

Na indústria do entretenimento como um todo (seja Cinema, games, TV…) o único cenário no qual alguma franquia ou série de sucesso é permitida a aposentadoria é quando esta já não mais é fonte segura de receitas exorbitantes de dinheiro.

Apesar desta tendência infame, depois de três entradas de extremo sucesso com Uncharted Drake´s Fortune, Among Thieves e Drake´s Deception – cimentando a série como a “face” da marca Playstation na última década (além é claro da obra-prima da última geração, The Last of Us), a Naughty Dog – sem dúvidas o estúdio de maior prestígio da família da Sony – decide por um ponto final resoluto na história de Nathan Drake.

Uncharted 4: A Thief´s End é o fim definitivo do ladrão mais carismático do mundo do entretenimento contemporâneo.

HISTÓRIA

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Alguns anos depois dos eventos do último jogo, reencontramos Nathan Drake (Nolan North) vivendo uma vida aparentemente ordinária ao lado de Elena (Emily Rose), em algures de Nova Orleans.

Tendo deixado as vidas de “aventura” para trás, o casal estabeleceu um estilo de vida no qual prevalece o corriqueiro: Nathan trabalha como um funcionário em uma doca, enquanto Elena agora escreve para revistas de turismo e afins.

Quando o irmão há muito perdido de Drake, Sam (Troy Baker), reaparece propondo um negócio que levará o protagonista de volta ao submundo dos ladrões, Nathan é obrigado a pesar sua vida estabelecida com Elena com a situação na qual seu irmão se vê envolvido precisando de sua ajuda.

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Dirigido por Neil Druckmann e Bruce Straley (a dupla responsável por The Last of Us) com um roteiro assinado por Druckmann e Josh Scherr, Uncharted 4: A Thief´s End mergulha de forma aprofundada no íntimo de seus protagonistas de uma maneira jamais vista na série (ou mesmo nos games, com exceção da última obra do estúdio).

As influências de The Last of Us são claras como a luz do dia em A Thief´s End.

Druckmann e Straley sabem que o cerne de toda boa história está em seus personagens, e – assim como o foco de The Last of Us estava na relação desenvolvente entre Joel e Ellie – o âmago de Uncharted 4 está em Nathan, Sam e Elena, e o que faz aquelas pessoas agirem da maneira como agem.

Ao amarrar uma história que tenha em seu centro estes personagens e suas relações, a Naughty Dog criou aquele que é, honestamente, um dos mais belos e refinados estudos de personagem a já agraciarem os games – ou melhor – a qualquer obra blockbuster que se encaixe no gênero de ação/aventura.

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Sam é um personagem completamente novo à série e, ciente disso, o roteiro não poupa esforços para estabelecer o personagem do zero. Através de flashbacks elegantemente encaixados na narrativa, somos levados a conhecer um pouco mais de seu passado ao lado de Nathan e o companheirismo evidente existente entre os irmãos. Consequentemente, quando encontramos Sam na situação em que se encontra, é impossível não compreender o dilema pelo qual Nathan passa, tamanha a eficiência com a qual a relação entre os dois é fundamentada.

Da mesma forma, o relacionamento entre Drake e Elena é retratado com uma delicadeza e doçura encantadora. Ao reencontrarmos nossos já queridos protagonistas relegados à uma vida de tédio e conversas que empalidecem diante do extraordinário de suas vidas passadas, é difícil não se sentir comovido com a interação, apesar de tudo, amável do casal. E assim, o terceiro ato de A Thief´s End conceitua de forma belíssima os problemas e comprometimentos envolvidos em um matrimônio, de uma forma que só funciona devido à construção narrativa meticulosa que o precede.

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Apesar disso tudo, Nathan Drake que é certamente a figura mais explorada de Uncharted 4. Ao aprofundarmos no passado com seu irmão, temos um vislumbre de Nathan antes do protagonista adquirir a personalidade brincalhona e encantada por história como o conhecemos.

Depois de anos fora da vida de aventuras, quando confrontado com a oportunidade de reviver sua vida passada – agora ao lado de seu irmão, igualmente fascinado pela história – Nathan se vê em um impasse que o obriga a definir a prioridade de suas paixões. E é nesse dilema que A Thief´s End encontra o embasamento narrativo que sustenta este último capítulo da série: a obsessão pessoal.

Ao longo da jornada, acompanhamos um arco de desenvolvimento pessoal do protagonista que o obriga a colocar em análise sua obsessão e paixão por um estilo de vida deixado para trás com suas paixões priorizadas no presente – em especial seu casamento com Elena.

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Claramente “enferrujado” pelo tempo – é genial como, ao vestir um terno em determinado momento da história este se mostra claramente amarrotado e largo ao seu corpo comparado com o de seus colegas – no decorrer de Uncharted 4 somos presenteados com uma trajetória de desenvolvimento pessoal fascinante de um personagem que se mostra muito mais complexo do que imaginávamos quando o vimos pela primeira vez há nove anos em Drake´s Fortune.

É admirável então que um dos temas sublinhados ao longo de A Thief´s End seja a nostalgia (e o jogo conta com um determinado momento que eleva o conceito de nostalgia a níveis inimagináveis se você jogava videogame na década de 90 ou no início dos anos 2000) e assim, o apego ao passado demonstrado pelos personagens acaba sendo não só compreensível, como direta e simplesmente relacionável – e neste sentido, o jogo atinge um nível de metalinguagem surpreendentemente admirável.

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Infinitas salvas de palmas não fazem jus ao trabalho de direção realizado por Neil Druckmann e Bruce Straley neste último jogo da série. Apesar de estarem substituindo a talentosíssima Amy Hennig (que comandou os outros três jogos), a dupla consegue estabelecer uma coerência e profundidade narrativa na qual os capítulos anteriores jamais chegaram perto de atingir.

A fluidez e o ritmo que encapsulam a narrativa de A Thief´s End são de uma proeza imensurável. Brincando com destreza com a estrutura da história, a trama salta de momentos diferentes da vida dos personagens com uma naturalidade invejável. O jogo apresenta um ritmo definitivamente mais lento que o de seus predecessores, mas nem por isso menos afiado – rivalizando até mesmo o segundo jogo da série, Among Thieves, que era um exemplo imaculado em termos de ritmo.

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Tendo em seus personagens a alma central da história, é preciso imenso reconhecimento ao impecável elenco aqui apresentado (e por favor, não cometa o tropeço de jogar este jogo de forma que não seja em seu áudio original): Nolan North volta a interpretar o protagonista com extrema excelência, conseguindo mostrar de forma tocante e complexa todas as facetas de Nathan Drake de forma jamais vista anteriormente. Enquanto isso, em sua composição de Sam, Troy Baker realiza um trabalho que consegue transmitir a natureza violenta do personagem, ao mesmo tempo que demonstra ser um homem que, apesar de tudo, é fiel aos ideais de sua família e objetivos pessoais – no processo criando uma figura que ainda consegue transparecer imenso carisma. Voltando a interpretar a adorável Elena, Emily Rose, mais do que nunca, consegue extrair personalidade da personagem, seja em momentos que exigem a demonstração de força emocional (e uma cena em particular poderia render à atriz alguns prêmios com facilidade) ou em instantes que envolvem um tom emotivo mais subjugado. Fechando o elenco, Richard McGonagle traz de volta o imensamente carismático Victor Sullivan sendo o Sully que adoramos, à medida que Warren Kole e Laura Bailey compõem aqueles que são sem sombra de dúvidas os melhores antagonistas da série com Rafe Adler e Nadine Ross.

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Uncharted 4: A Thief´s End é uma conclusão magnífica para a história de personagens que conhecemos há quase uma década.

Com uma construção narrativa impecável do primeiro ao último capítulo, A Thief´s End é o raríssimo exemplo de conclusão de uma franquia que não esperou a irrelevância para se declarar encerrada.

Se mostrando um complexo estudo dos personagens que acompanha, Uncharted 4 é um jogo que pode, com facilidade, te levar do riso às lágrimas à empolgação frenética da ação, com uma constante: a fascinação ininterrupta pela história que é contada.

JOGABILIDADE

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No departamento da jogabilidade e afinidade mecânica, Uncharted 4: A Thief´s End apresenta um avanço gigantesco comparado a seus antecessores.

Ainda que se mantenha na linha tradicional de um Third Person Shooter, o jogo consegue mesclar de forma tão variada seus elementos que nunca há a sensação de fadiga de uma atividade específica.

O jogo se divide em alguns pilares centrais em suas mecânicas: combate, plataforming, quebra-cabeças e exploração.

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Nos combates, mais uma vez a influência de The Last of Us é evidente: a grande maioria dos cenários permitem duas aproximações distintas: o confronto direto, dando origem à frenéticos tiroteios, e o uso da boa e velha furtividade.

Mas não é como se os sistemas do jogo isolassem as duas aproximações de forma binária – ao ser visto por algum inimigo você não é obrigado a engajar no combate logo de cara, e se preferir, é possível correr e achar algum lugar para se esconder e continuar a estratégia na furtividade – com os inimigos, obviamente, em estado de maior alerta então. Os confrontos acabam por ganhar uma dinamicidade muito maior desta vez, se tornando intrinsicamente mais orgânicos, reminiscente daqueles vistos na última obra da Naughty Dog. Muitas vezes você não é nem mesmo obrigado a eliminar algum inimigo (claramente efeito das críticas sobre a dissonância ludo-narrativa vista nos outros jogos da série), mas mesmo quando o jogo força algum tiroteio, estes acabam por serem sempre de uma energia eletrizante – e se as mecânicas de tiro nos jogos anteriores eram problemáticas ou simplesmente desestimulantes, este já não é mais o caso, já que o disparar, entrar e sair de coberturas nunca foi tão fluído e revigorante como é em Uncharted 4.

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Como tradição da série, o game também conta com várias seções de plataforma, exigindo que o jogador realize os tipos de saltos e feitos acrobáticos que só poderiam ser rivalizados por Lara Croft. Tais sequências são sempre amparadas pelo espetacular level design dos cenários, que possuem um nível de verticalidade impressionante – que também transcendem para os cenários de combate do jogo.

Combinando tais elementos, Uncharted 4 também conta com as espetaculares setpieces (sequências grandiosas de ação) pelas quais a série é conhecida. Apesar de, estruturalmente, nenhuma ser tão icônica como aquela do trem em Among Thieves ou o cruzeiro e o avião de Drake´s Deception, as sequências deste quarto jogo não deixam de serem igualmente impressionantes em sua execução – com o controle sempre nas mãos do jogador – propiciando vários momentos dignos de euforia que a franquia está costumada a provocar.

Honestamente, com a adição de novas mecânicas como o divertidíssimo gancho balançante e a verticalidade dos cenários de confronto – cada seção de combate pode facilmente ganhar contornos de uma setpiece dada a imensa fluidez da ação momento-a-momento que o jogo apresenta (e o ótimo modo multiplayer faz excelente uso de tais mecânicas para emular o caos nas partidas online).

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A Thief´s End também conta com uma variedade inteligente de quebra-cabeças ao longo do jogo: sem se mostrarem demasiadamente difíceis a ponto de gerarem frustação, estes são sempre bem planejados e projetados de forma que requerem um pouco de raciocínio, mas que permitem a resolução pela intuição visual.

Por fim, ao longo da extensa campanha, também somos presenteados com extensas seções de exploração, que muitas vezes funcionam não só como um elemento efetivo de controle do ritmo da história, como também servem para o aprofundamento do desenvolvimento dos personagens através da jogabilidade.

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E neste sentido a Naughty Dog mais uma vez se mostra como o diferencial da indústria. É fascinante o quanto da narrativa de A Thief´s End se desenvolve com o controle na mão do jogador. Seja na utilização de mecânicas estabelecidas ou da simples exploração – o jogo faz um trabalho extraordinário em conciliar a interatividade com a narrativa.

Em certo momento ao início do game, o tutorial que ensina ao jogador as mecânicas básicas de tiroteio do jogo é apresentado em um contexto que em sua beleza e simplicidade consegue provocar o riso, a empatia, desenvolver o estado emocional no qual Nathan Drake se encontra e, é claro, nos ensina uma mecânica que usaremos durante o resto do jogo (e neste momento é impossível não lembrar da bela expansão de The Last of Us, Left Behind).

A naturalidade com a qual a Naughty Dog usa da ferramenta central da mídia com a qual trabalha (a interatividade) é tão virtuosa que o resto da indústria deveria prestar atenção e tomar algumas lições.

APRESENTAÇÃO

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De forma resoluta: Uncharted 4: A Thief´s End é incontestavelmente o jogo mais belo já feito.

E isto não apenas em termos de consoles – A Thief´s End é tecnicamente mais impressionante até que qualquer outro jogo rodando na mais poderosa das máquinas. O nível de poderio técnico extraído pela Naughty Dog aqui é simplesmente inigualável.

A quantidade de detalhes apresentada chega a ser ridícula: texturas absurdamente bem trabalhadas (falar que estas beiram o fotorrealismo seria um desserviço), a fluidez e naturalidade das animações contextuais, a forma como os objetos do mundo reagem aos personagens (como as impressionantes folhagens das florestas) até efeitos de partículas estupendos (flocos de poeira, chuvas, fumaças e explosões nunca aparentaram tão reais em um game), Uncharted 4 é um feito que demonstra como nunca a capacidade técnica do Playstation 4 – ou mesmo de games como um todo, honestamente.

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A qualidade dos modelos e das animações dos personagens é simplesmente de outro mundo também. É possível enxergar, literalmente, os poros ou até mesmo pequenos folículos de pelo no rosto destes (o nível de detalhe chega a ser tão absurdo que até mesmo os pelos no peito de Nathan Drake reagem de acordo com o vento do lugar onde ele estiver).

Da mesma forma, a veracidade que as animações faciais (agora amparadas pelo processo de facial-capture) conseguem transmitir durante as cutscenes – que rodam integralmente in-game, sem a menor transição entre a jogabilidade para com estas – é de assustar. Até mesmo os mais simples dos olhares lançados por algum personagem conseguem transmitir um nível de humanidade que um amontoado de falas não conseguiria em uma produção do tipo.

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Substituindo Greg Edmonson (responsável pela magistral trilha-sonora de Drake´s Deception), Henry Jackman consegue, no mínimo, se mostrar tão competente quanto: compondo uma trilha que consegue ser memorável (sua versão do tema principal da série é particularmente inspiradora), Jackman demonstra composições que compreendem de forma perfeita todos os espectros emocionais articulados pela narrativa de A Thief´s End, desde os momentos mais pessoais, aos picos da ação, até aqueles que exalam o senso de aventura de Uncharted.

CONCLUSÃO

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Grandeza de pequenos começos

O lema de Sir Francis Drake adotado como bússola por nosso protagonista em sua primeira aventura encapsula perfeitamente a alma de Uncharted: com uma ótima introdução em Uncharted: Drake´s Fortune¸ a série ainda transparecia pequenez se comparada com a grandeza que um dia viria a atingir com Uncharted 2: Among Thieves, Uncharted 3: Drake´s Deception e agora, acima de tudo, com este magnífico e conclusivo Uncharted 4: A Thief´s End.

Chegamos a um ponto de que é incontestável o fato de a Naughty Dog ser, indubitavelmente, o estúdio mais talentoso do mundo na arte de criar experiências que tiram o máximo do veículo usado para se contar uma história. Se o resto da indústria teme usar a interatividade como ferramenta narrativa devido as dificuldades que esta pode trazer, a Naughty Dog a abraça como elemento fundamental na concepção de suas obras.

Sendo assim, é impossível não elevar Uncharted 4: A Thief´s End ao status de obra-prima.

Dito isso, este último capítulo da história de Nathan Drake consegue encantar independente da percepção separada de suas virtudes, com uma experiência incrível que me estampou um sorriso no rosto do primeiro ao último minuto, com um epílogo dotado de uma beleza que transcende palavras. Foi impossível não me emocionar ao perceber que esta seria a última vez que teria o prazer de encontrar aqueles personagens pela primeira vez.

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Nate, Elena, Sully e companhia: obrigado pelas aventuras inesquecíveis.