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Análise – Star Wars: Battlefront II

Star Wars: Battlefront II

Star Wars: Battlefront II
6.5

Nota

6.5/10

Pros

  • Recriação visual e sonora impecável do universo de Star Wars
  • Multiplayer moderadamente divertido
  • Diversidade de mapas e modos de jogo

Cons

  • História principal vazia de substância
  • Missões da campanha carecem de inspiração própria e originalidade
  • Sistema de progressão problemático

Por: Luigi Wagner

Depois de passar anos relegada à apreciação particular dos fãs mais dedicados ou ao esquecimento após a recepção medíocre das prequels (episódios l, ll e lll) lançadas no início do milênio, Star Wars finalmente voltou a consciência popular com toda força com o lançamento do ótimo Episódio VII (O Despertar da Força), em 2015.

Desde então mantendo com eficácia o universo criado por George Lucas, em 1977, relevante na cultura cinematográfica – com o bom Rogue One, em 2016, e o recente e fabuloso Os Últimos Jedi – era de se esperar que a icônica franquia estivesse obtendo proporcional sucesso em suas empreitadas em mídias paralelas – como no mundo dos videogames.

Infelizmente, com Star Wars: Battlefront, lançado em 2015 (“às vésperas” de O Despertar da Força), a EA Games e seu estúdio de desenvolvimento – a DICE (famosa por sua abordagem com a série Battlefield) – acabaram por entregar uma obra que carecia de virtualmente qualquer substância – bancando seu principal apelo nos evidentes valores de produção do jogo (e Battlefront, de fato, transparecia e soava espetacular).

Dito isso, dois de seus principais problemas – a ausência de uma campanha com uma história canônica aos filmes e um modo multiplayer mais robusto – soavam como críticas que não pareciam tão difíceis de serem corrigidas em uma eventual sequência, delegando a EA então a “simples” tarefa de ouvi-las e agir de acordo em seu próximo experimento com a franquia.

Chegando agora então ao lado da estreia do oitavo episódio da série nos cinemas, Star Wars: Battlefront ll conta não só com um multiplayer “menos simplificado”, como também com uma campanha principal que, oficialmente, faz parte do cânone de Star Wars.

Em suma: uma receita certeira para aclamação universal, certo?

Bem…

Abrindo sua campanha principal durante os últimos momentos de O Retorno do Jedi (1983), o roteiro de Star Wars: Battlefront ll, escrito a duas mãos por Walt Williams (Spec Ops: The Line) e Mitch Dyer, acompanha, a princípio, aquele grupo de elite do Império que é conhecido como o “Esquadrão Inferno” – um grupo de indivíduos que é acionado somente nas situações e batalhas imperiais mais críticas.

Encabeçado pela comandante Iden Versio (Janina Gavankar), o Esquadrão tem a missão de evitar que os rebeldes aniquilem os poucos esforços ainda restantes do Império após os eventos decorridos no Episódio VI.

Inicialmente instigante por escolher abordar pela primeira vez no universo de Star Wars integrantes do “lado negro da Força” como seus principais protagonistas, Battlefront ll logo se acovarda de qualquer exploração temática aprofundada deste contexto, apenas para ceder a uma série de clichês e acontecimentos que não demoram a se tornarem previsíveis (uma constatação que só se torna mais triste ao percebermos que o jogo é escrito por uma das mentes responsáveis por Spec Ops: The Line – um dos shooters militares mais inconvencionais  dos últimos tempos). Assim, a jornada de Iden Versio é uma que leva ao jogador a pontos dramáticos que podem ser antecipados a horas de distância – enfraquecendo, então, qualquer impacto que estes poderiam ter.

O mais decepcionante de se constatar ao longo das curtas 5/6 horas de duração que encapsulam a campanha principal de Battlefront ll, no entanto, é a covardia demonstrada – ou por seus criadores ou por alguma exigência comercial da EA (o mais provável) – , ao completamente desviar sua narrativa de foco de Iden para colocar o jogador no controle de alguns dos personagens mais icônicos da série em momentos que soam quase que como vinhetas deslocadas da história principal. Dessa forma, qualquer investimento que começamos a construir na jornada de Versio é sempre sabotado por sermos forçados a assumir o controle de Luke, Leia, Han Solo ou outras faces memoráveis dos filmes. São momentos que não só são frustrantes do ponto de vista de design (afinal, o controle dos heróis em terceira pessoa se situa em um meio termo entre o ‘tosco’ e o ‘aceitável’), mas como também transparecem ser um imenso desperdício de oportunidade para se contar uma história original no universo de Star Wars.

Desapontante ainda por contar com uma série de missões carentes de inspiração – alternando entre corredores lineares de tiroteios, sequências que colocam o jogador no controle de alguma nave para a destruição de pontos específicos e as (já mencionadas) fracas seções envolvendo os heróis principais da franquia – a campanha de Battlefront ll fracassa na maior parte de seus exercícios – não importando o quão linda sua ‘roupagem’ seja.

Se Battlefront ll tropeça na concepção de sua campanha narrativa, ao menos no multiplayer é garantido que o jogo supere os problemas do anterior, certo?

Mecanicamente funcionando como um Battlefield menos afiado (ou seja, assim como seu antecessor), Battlefront ll traz um sistema de progressão indiscutivelmente mais denso que o último jogo.

Esta densidade, contudo, está menos associada a um arranjamento mais bem pensado deste do que está a sua natureza convoluta e não recompensadora.

Dispondo de um sistema de cards que podem ser associados a classes específicas ou a heróis, estes ‘cartões de habilidade’, quando implantados em alguma classe (são três cartões por classe, e todos estes podem ser vinculados somente às classes que pertencem), dão boosts específicos nas habilidades daquela classe – sejam estes mais sutis, como aumentar o raio de reconhecimento de inimigos no campo de batalha – ou até mesmo cards que literalmente aumentam o dano de armas ou a resistência a este.

Não bastasse a convolução envolvida neste sistema de cartas (uma vez que a manutenção destes se torna um tanto contra-intuitiva), estas ainda estão diretamente vinculadas a sorte das infames loot boxes (que sempre envolvem o ato arrastado de abrir uma a uma e esperar pelas animações de abertura). Dessa maneira, não é anormal abrirmos várias das caixinhas apenas para nos depararmos com itens para classes e personagens que não temos o menor costume de usar na hora de jogar. Para piorar, a quantidade de pontos de experiência necessários para se conseguir uma loot box padrão é ofensiva, considerando o ritmo em que estes são distribuidos durante as partidas online (e não vou nem entrar no aspecto das microtransações que foram ‘temporariamente’ desativadas e que permitiam a compra destas caixas com dinheiro de verdade)

Ao menos acertando na estruturação dos modos de jogo, Battlefront ll não conta com uma variedade monumental destes, mas os que compõem a seleção principal são todos diferenciáveis e únicos entre si: Galactic Assault , por exemplo, funciona como uma variação de Star Wars do modo Rush da série Battlefield, colocando um time com o intuito de cumprir determinados objetivos ao longo de fases e um outro time que tem como objetivo impedir que o primeiro cumpra todos os estágios da missão. Já Starfighter Assault é uma versão do mesmo modo, mas no âmbito de batalhas espaciais, enquanto Heroes vs. Villains coloca dois times compostos exclusivamente por heróis e vilões para se enfrentarem, restando então, em Blast, o team-deathmatch padrão do modo multiplayer.

Dentro das partidas, Battlefront ll funciona relativamente melhor que seu antecessor, com a sorte e disposição aleatória de naves e heróis daquele jogo sendo substituída por um sistema de pontos bem balanceado. Assim, finalmente assumir o controle de Luke, Rey ou Darth Vader no campo de batalha é sempre fruto da competência exercida durante as partidas, tornando estas ocasiões sempre especiais e recompensadoras (e se na campanha a movimentação um tanto tosca destes incomoda, no caos do multiplayer, as animações não distoam tanto)

Contando ainda com uma seleção respeitável de mapas que atravessam todas as três principais eras dos filmes – a trilogia original, as prequels e a nova trilogia – as batalhas online transitam de Hoth e Endor a Kamino e Jakku de forma orgânica, com a constante de sempre recriarem aqueles lugares com um detalhismo estupendo.

E é nesta atenção aos detalhes e a recriação visual e sonora daquele universo que Battlefront ll indiscutivelmente brilha, tornando o trabalho da DICE um que é capaz de fascinar àqueles que ‘se sentem em casa’ com a franquia e embasbacar qualquer um que tenha apreço por vistas impressionantes – agregando um valor que, honestamente, pode ser capaz até de valer a experiência para aqueles mais investidos em Star Wars, dada a capacidade que o jogo lhe dá de habitar aquela mitologia – mesmo que de forma breve e (muitas vezes) desarticulada.

Dito isso, considerando o orçamento e o calibre milionário envolvido na produção de um jogo como Battlefront ll (fora o histórico envolvendo o jogo anterior), era de se esperar que a DICE concebesse uma obra que, ao menos fizesse jus ao cânone de Star Wars contemporâneo – uma afirmação que, infelizmente, não é possível se fazer.

Ao menos, neste exato momento em que o autor vos escreve, você pode ir ao cinema e assistir aquele que é, provavelmente, o experimento mais brilhante com a franquia até hoje, em Os Últimos Jedi.

É certamente um investimento mais recompensador.