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e-Sports: Será que somos tão profissionais assim?

O Brasil já recebeu um grande evento de Counter-Strike: Global Offensive. Será que já estamos prontos para um Major? (Foto: HLTV)

Comecei a acompanhar os esportes eletrônicos, mais especificamente o Counter-Strike: Global Offensive, quando vi que uma equipe brasileira disputaria um campeonato mundial e a premiação total era 250 mil dólares. Cai para trás com o valor que (para mim) na época era astronômico. Quase três anos depois, conheci um mundo incrível, descobri pessoas, jogos, campeonatos e oportunidades impressionantes para várias áreas.

Esses três anos também foram de muito aprendizado e VALORIZAÇÃO. Todos que veem de fora e pedem mais informações e ficam perplexos com histórias e números que os esportes eletrônicos tem. Vimos o boom que aconteceu nos últimos anos, chegando a ser cotado para disputa de Jogos Olímpicos.

A grande dúvida que vejo é: Será que somos tão profissionais para administrar esse crescimento vertiginoso que acontece nos e-Sports?

Obs.: Sempre tratarei os verbos na primeira pessoa do plural. O esporte eletrônico é feito por TODOS. Os que jogam, os que mostram e os que assistem. Portanto, VOCÊ faz parte disso.

Os Problemas

Desde os primórdios houveram vários acontecimentos que beiravam o absurdo, mas o caso de Vito “kNgV-” Giuseppe & Immortals é o que está em evidência e foi só ápice dá nossa evidente falta de profissionalização em vários aspectos. Então, esse artigo usará esse caso como base para toda a discussão. A cada evento tentarei apresentar soluções óbvias em outros meios.

“kNgV-“: De destaque do Major à epicentro de confusão (Foto: HLTV)

Evento 0: O evento zero foi no período de janela de transferências. Com a boa campanha da Immortals no Major surgiram vários boatos, rumores, sobre a transferência de parte da equipe para outra organização. Apesar de na própria GCB se publicar rumores como esse, sou contra. Acontece em vários lugares, em vários esportes, porém o jornalismo deve publicar fatos, acontecimentos. Isso com certeza influência na relação dos jogadores com os responsáveis da equipe, perda de confiança. Além disso, põe em cheque a credibilidade dos informantes.

Evento 0,5: O evento 0,5 foi a contratação de João “Horvy” Horvath. Incompreensível a reação de parte dos atletas da Immortals com a contratação de um reserva. Contratar um bom profissional para sua empresa é mais que comum, e contratar um bom atleta para ser reserva numa equipe gera competitividade dentro da equipe, fomentando o crescimento.

Evento 0,9: O acontecimento 0,9, um fato que me chamou a atenção e que pra mim foi o estopim para tudo que veio depois. A falta de documentação de “kNgV-“. E o reserva, “Horvy” também não ter. Em vários outros esportes que montam elencos internacionais (futebol, vôlei e handebol) a primeira coisa que a equipe pede para seu atleta é preparar o visto de trabalho. O caso da Immortals erra ao não cobrar isso para fechar a contratação de um jogador. Mas esse problema de visto não fica só na equipe estadunidense, Finn “karrigan” Andersen já chegou a ficar fora de algumas partidas da ELEAGUE Season 1 pelo mesmo problema.

Evento 1: DreamHack Montreal, o evento principal. Toda a correria do “kNgV-” para disputa desse campeonato é digno de aplausos, porém não se deve sacrificar um jogador assim. Entregar um mapa numa decisão de campeonato MD3 é sim muita falta de profissionalismo. Independente dos motivos, independente da hora que chegou ao torneio, os atletas estão errados. Mas não só os culpo. Isso também é culpa da organização. Lembramos que a função de um Coach é treinar a equipe e não cuidar dos atletas, ele está em mesmo nível hierárquico. Em outros esportes existe a figura do Chefe de Delegação. Isso não está presente só nos esportes, também tem em viagens escolares, de turismo etc. Ele seria responsável pela organização da viagem, passagens, hotel, alimentação, HORÁRIOS, para que o atleta só fique responsável por jogar. Com uma pessoa como essas, com certeza a equipe da Immortals não estaria espalhada antes de uma final de competição.

Evento 2: CAPÍTULO ESPECIAL SOBRE AS REDES SOCIAIS. Confusão pós final. Acusados de atraso por conta de estarem embreagados por várias pessoas nas redes sociais. Essas pessoas incluem torcedores, especialistas e outros jogadores. Como dito anteriormente, não importa o motivo do atraso, caso fosse justificavél todos saberiam. Acusar sem provas é errado, isso é comum na nossa sociedade moderna, porém continua sendo errado.

Atitude que aumentou ainda mais o problema na DreamHack Montreal (Reprodução: Twitter)

O comentário do canadense Pujan “FNS” Mehta foi a fonte de toda a raiva “kNgV-“, que o ameaçou de morte. Entendemos a fúria do então jogador da Immortals. Zidane deu uma cabeçada em um adversário numa final de Copa do Mundo. Outro caso foi visto recentemente. Atitudes dessas acontecem, tanto que ele apagou, um pequeno sinal de arrependimento. O que é preciso entender, que quando você é atleta uma organização, você faz parte dela, sua imagem está vinculada, portanto, se você fizer qualquer comentário ofensivo é como se a organização tivesse feito. E além de levar a imagem da organização, leva a imagem dos patrocinadores dessa organização. Se depois desse caso um patrocinador saísse, aconteceria como um efeito dominó. Por isso era fundamental um pedido de desculpas “kNgV-“.

Nessa hora que entra o assessor de imprensa. O papel desse profissional é estar do lado de seu assessorado, controlando suas palavras, cuidando da sua imagem perante a sociedade, afinal, ele passou a ser uma figura pública. Claro que o assessor não cuida de tudo que o assessorado publica em suas redes sociais, mas é função dele evitar crises e dizer quando está certo ou errado em qualquer circunstância.

Um exemplo vem do League of Legends. O jogador Felipe “YoDa” Noronha fez um comentário em seu Twitter, no mínimo infeliz, e sofreu as punições. Sua equipe publicou uma nota repudiando essa atitude e posteriormente ele mesmo publicou um vídeo se desculpando pela atitude, INDEPENDENTE do que outros falaram. (detalhes do caso aqui).

O mesmo vale para Lucas “steel” Lopes e Ricardo “boltz” Prass durante a entrevista para a ELEAGUE que comentaram sobre o caso e acabou gerando um clima mais tenso entre a equipe. O assessor poderia informar que eles não responderiam qualquer pergunta em relação aos acontecidos.

Evento 3: Guerra de notas oficiais. Depois dos problemas nas redes sociais, a Immortals disputou a ELEAGUE sem “kNgV-” que estava no Brasil e parecia que tudo havia se acalmado. Porém aconteceu todos os problemas do qualificatório da EPICENTER 2017 e finalmente tudo se ruiu, chegando ao estado atual. “kNgV-” publicou sua nota oficial, que pode ser lida na íntegra aqui e Noah Whinston, CEO da Immortals, informou em sua nota oficial em forma de vídeo, que pode ser visto aqui. Vamos as controvérsias

• Para “kNgV-” a reunião que definiria a punição seria após esse confronto do qualificatório. Mas de acordo Noah a reunião deveria ter acontecido um dia antes desse jogo e que por algum motivo, o player não pode comparecer (provavelmente não sabia).

• Diante disso, Noah informou a todos os outros da equipe que “kNgV-” não poderia disputar nenhuma partida oficial. O que só foi repassado para ele minutos antes da partida.

• Depois de perderem o primeiro mapa utilizando Rafael “zakk” Fernandes como o quinto player, Henrique “HEN1” Teles e Lucas “LUCAS1” Teles teriam conseguido uma autorização com Nick “Swaguhsaurus” Phan para “kNgV-” voltou a jogar. Já na versão do CEO, os gêmeos teriam se recusado a jogar a partida caso “kNgV-” não jogasse.

Essas incoerências só trazem a falta de controle de ambas as partes. Foram ONZE dias desde os infelizes tweets até a rescisão de contrato do atleta brasileiro. A Immortals errou ao não resolver isso logo após a final contra a North. Ligando para o atleta, publicando uma nota oficial em seu site, tudo estaria resolvido.

Evento Final: Novamente um tweet gerando demissão. Mateus Portilho que era Social Media foi demitido, após tentar transformar em meme os dizeres de “kNgV-” a “FNS”. Somos um nicho que vive na internet, redes sociais e o HUE BR está muito presente, porém, em assuntos delicados e MAL RESOLVIDOS, não se deve fazer brincadeiras.

Evento Extras: Relembro também o caso da saída de Lincoln “fnx” Lau ainda da SK Gaming. Antes mesmo de ser conversado internamente, a informação foi vazado por algum membro da ECS, mostrando uma falta de índole.

As Justificativas

• Tudo é muito novo. Não existe estudos, trabalhos, eventos, modelos para se basear. Qualquer acontecimento fora da normalidade causará problemas. A repetição que traz a perfeição.

• Profissionais de outras áreas. Tirando os players e coachs, todo o resto é formado por profissionais de outras áreas que adaptaram seu trabalho, sem contar os apaixonados que transformaram isso numa profissão.

• Muitas pessoas novas que fazem toda a roda girar. Maturidade vem ao longo do tempo e com as experiências da vida.

Conclusão

Ressalto novamente que esse caso foi como exemplo. Se pesquisarmos ao longo da história dos esportes eletrônicos iremos encontrar vários casos de problemas. Isso é para uma reflexão sobre como estamos fazendo nossa função dentro dessa imensa engrenagem. Espero que com ele mudemos um pouco das nossas atitudes para melhorar ainda mais e realmente chegarmos a um patamar de respeito perante toda a sociedade.