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Análise – Horizon: Zero Dawn

Horizon: Zero Dawn

Horizon: Zero Dawn
95

História

9/10

    Jogabilidade

    10/10

      Design

      9/10

        Apresentação

        10/10

          Pros

          • Trama e universo fascinantes
          • Protagonista memorável
          • Mecanicamente esplêndido
          • Mundo-aberto variado e que justifica sua escala
          • Técnicamente espetacular

          Cons

          • Ocasional excesso de exposição pelo roteiro

           

          Por: Luigi Wagner

          Capazes de nos transportar para mundos desconhecidos e completamente diferentes daquele real, os videogames – mais do que qualquer outro meio da Arte – conseguem nos imergir em universos que só seriam capazes de existir em nossa imaginação e, ao mesmo tempo, nos permitir a exploração de seus conceitos e grandezas com uma voz significativa.

          Horizon: Zero Dawn, novo trabalho da holandesa Guerrila Games (previamente estabelecida basicamente sob a série de shooters, Killzone), é um dos exemplos mais impressionantes em memória recente do estabelecimento de um mundo ficcional que grita histórias e mistérios desde o primeiro momento que o avistamos.

          Ambientado cerca de mil anos no futuro, Horizon nos apresenta a um mundo dito “pós-pós-apocalíptico”, onde edificações e construções da sociedade como conhecemos não passam de meros destroços encobertos por uma natureza que já há muito voltou a ser a presença dominante. Porém, não é como se aquele mundo fosse livre de ameaças para aqueles poucos que ainda o perambulam – pelo contrário: habitado por máquinas robóticas que, em termos estéticos remetem àquelas criaturas que costumamos associar à natureza (de cervos, felinos até dinossauros), o mundo de Horizon é um letal para todos os efeitos, e – hostis na maioria de seus “espécimes”-, suas bestas não hesitam em atacar logo a primeira vista qualquer forma de vida que não seja de natureza “digital”.

          Neste contexto somos apresentados à Aloy (Ashly Burch). Exilada de sua tribo ainda quando criança por razões de desconhecimento de sua origem, Aloy é uma mulher que decide lutar contra a condição de “excluída social” imposta em sua infância e, no processo, busca também uma explicação sobre os mistérios de sua origem.

          Situando-se indiscutivelmente no âmbito da ficção-científica (ainda que a primeira vista pareça flertar com a fantasia), Horizon: Zero Dawn demonstra ser um exercício de gênero inteligentíssimo em sua concepção temática. Se o contexto daquele universo soa absurdo a primeira instância (dinossauros robôs?), não demora muito para que o engenhoso roteiro de John Gonzales comece a explorar as ideias por trás daquele mundo de maneira que mantenha o jogador engajado em cada nova informação acerca do mistério central da trama. Assim, à medida que a história se desenrola, o game consegue manter com consistência um “gancho” efetivo para o próximo pedaço da narrativa a ser revelado.

          Para uma história que dependa tão pesadamente de um mistério central para manter o fluxo, é surpreendente então que Horizon consiga entregar com tanta proeza em seu terceiro ato. Levantando discussões fascinantes acerca do que é ser “humanidade”, e qual a relação do planeta Terra enquanto sistema para com seus seres vivos, Horizon consegue provocar sua boa parcela de reflexões acerca da humanidade no presente, assim como no seu (não tão promissor) futuro. Não só isso: é difícil começar a descobrir a trajetória que levou a civilização ao colapso naquele mundo e não questionar se, no caso de um estopim como o que iniciou tudo aquilo, os eventos não transpareceriam da mesma maneira em nossa realidade (e o trabalho de construção de mundo periférica que o jogo faz com áudios e arquivos é simplesmente fenomenal). Assim, a jornada de Aloy consegue estimular não só pelo simples efeito das revelações que a acompanham, mas como também pelo conjunto de reflexões filosóficas e sociológicas que traz consigo.

          Por falar em Aloy, é preciso apontar que Horizon estaria longe de ser narrativamente tão bem-sucedido não fosse por sua tão bem estabelecida protagonista. Se esforçando diariamente para ter o reconhecimento básico que aqueles que não pertencem a uma minoria têm de forma casual (não tão longe daquelas de nosso mundo), Aloy luta constantemente por um lugar numa sociedade que a descartou de lado desde seu nascimento por conta da natureza de sua origem (de novo, não tão distante de nossa realidade…). Possuindo um arco dramático que conduz a protagonista de uma garota insegura de seu lugar no mundo a uma mulher certa de seus propósitos e forças, Aloy (encarnada com excelência por Ashly Burch), não só conquista nossos corações ao longo de sua aventura, mas também nos pura e simplesmente inspira – no processo não só se estabelecendo como um dos ícones mais memoráveis do Feminismo nos videogames em memória recente, mas na história da mídia como um todo.

          Pecando apenas por ocasionalmente pesar a mão na exposição naquelas sequências narrativas mais densas (às vezes os personagens parecem comentar o óbvio com receio de que algo não tenha ficado esclarecido), Horizon é majoritariamente um épico grandioso – um que sabe dar dimensão encantadora não só a seu fascinante universo – mas também à fantástica protagonista responsável por conduzir sua história.

          Encaixando-se na esfera dos RPGs ocidentais modernos, Horizon pode até não ser tão denso como companheiros de gênero como The Witcher ou Fallout, mas o jogo certamente captura as melhores qualidades do domínio.

          Situando um imenso mundo-aberto para o desenrolar de sua história e quests paralelas, o game certamente impressiona no escopo: altas montanhas encobertas por neves, vastos desertos e grandes florestas dos mais variados estilos compõem aquele universo não só com identidade própria, mas também com uma surpreendente variedade locacional. Assim, é difícil sentir-se cansado de um certo tipo de ambiente, uma vez que estes estão sempre se alternando a medida que o jogador explora aquele mundo tomando parte em suas histórias e atividades.

          Estas, por sinal, também conseguem transparecer surpreendente variedade em estrutura: da fantástica campanha encapsulada pela história principal, side quests que exploram um pouco mais dos habitantes coadjuvantes daquele mundo até a divertidíssima e estimulante exploração por colecionáveis (que vão desde grandes robôs pescoçudos que requerem a escalada até o topo para clareamento de elementos no mapa até “caldeirões” tecnológicos que contam um pouco mais sobre a faceta avançada daquele contexto), Horizon faz questão de que o jogador esteja sempre compelido a fazer algo (e há tempos não via um jogo sugar horas tão facilmente como este o fez).

          É formidável então que Horizon seja um jogo tão fabuloso de se… jogar. Do maravilhoso controle e movimentação de Aloy (atirar, correr, deslizar poucas vezes foi tão gratificante em terceira pessoa), até os magníficos sistemas de combate do jogo, Horizon é facilmente um dos games de mundo-aberto mecanicamente mais competentes que já joguei até hoje.

          Contando com cenários de combate que em sua natureza orgânica parecem inspirar a ação e a estratégia concorrentemente de forma exímia, o jogo consegue (com frequência) criar alguns dos embates mais divertidos em um game em tempos recentes. Se no aspecto dos conflitos com inimigos humanos, o jogo segue a fórmula comum do velho “faça do seu jeito”, permitindo a alternação entre a furtividade e ação com excelência, é no aspecto dos combates contra as máquinas que Horizon realmente brilha. Possibilitando o uso de diversos aparatos para manutenção do campo de batalha, não faltam recursos ou armas para a pré-meditação de uma luta contra as bestas mecânicas: cordas elétricas e explosivas que estouram ao contato do inimigo, arpões para prender estes ao chão e fixa-los para menor mobilidade do mesmo, dispositivos que disparam diferentes tipos de elementos destrutivos, até o maravilhoso arco-e-flecha, Horizon consegue evocar o tipo de estratégia emergencial que senti pela última vez ao enfrentar os infames Big Daddies, em Bioshock, há quase uma década.

          Considerando que o jogo conta com sua extensa “fauna robótica”, cada inimigo requer também uma aproximação diferente, e estimulando o escaneamento destes pelo jogador para o reconhecimento de pontos-chave para maior eficiência nos conflitos, Horizon consegue passar a verdadeira sensação de estarmos “aprendendo” sobre aquelas máquinas sob uma ótica quase de um caçador profissional – e para um jogo que conceitualmente envolve basicamente a caça a “dinossauros robôs e afins”- isto não poderia ser mais apropriado.

          Imaculado do ponto de vista técnico, Horizon é um jogo esplêndido em todos os seus ângulos e paisagens (para efeito de prova, com exceção da arte conceitual que encabeça este texto, todas as imagens aqui contidas foram capturadas diretamente do Playstation 4 do redator que vos escreve através do sensacional Modo Fotografia com o qual o jogo conta). Empoderado pelo Decima Engine (que futuramente sustentará também Death Stranding, de Hideo Kojima), o jogo é essencialmente uma obra-prima visual. Casando organicamente elementos do presente (as ruínas da civilização), com elementos do passado (a estética tribal dos figurinos e os lares de seus inúmeros povoados) juntamente com elementos do futuro (as máquinas animais – que são sempre absolutamente espetaculares em seus designs), é impressionante como tudo se une para a criação de um mundo que soa surpreendentemente verossímil em sua arquitetura visual (e a fabulosa trilha composta por Joris de Man e companhia consegue igual efeito ao combinar arranjos orquestrais com composições eletrônicas com imensa versatilidade).

          A mera variedade e beleza natural daquele universo são suficientes para a criação de um senso de espetáculo a todo momento. Dos desertos poeirentos (com direito a tempestades de areia), às extraordinárias e complexas florestas temperadas e tropicais (a flora particular de cada uma é por si só algo digno de deixar os olhos brilhando), até o alto das montanhas dominadas pela neve, o contraste visual entre a natureza e a tecnologia do mundo de Horizon é algo que denota àquele mundo uma faceta diferente de qualquer outro que já tive o prazer de conhecer na ficção-científica.

          A série Killzone sempre demonstrou um apuro técnico aguçado por parte da Guerrila na concepção de seus trabalhos – mas enquanto aquela franquia era limitada pelo constante domínio de uma paleta cinza e dessaturada – em Horizon a desenvolvedora abre as asas para explorar todo este poderio técnico em um universo não só infinitamente mais interessante, mas também repleto de cores para os melhores dos efeitos. E o mais impressionante de tudo: no escopo de um mundo-aberto.

          E é por isso que Horizon se difere do restante de jogos do gênero. Enquanto a maioria dos exemplos recentes de mundos-abertos transparece ter escala apenas para efeito de escala (sem possuírem muito valor no que compreende esta), Horizon tira proveito de sua estrutura para contar a história de um universo que exala personalidade própria a todo instante: seja em suas belíssimas paisagens, em seu conjunto particular de “seres vivos”, ou em sua admirável protagonista.