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Uma análise do Oscar 2017: Do pior ao melhor

Por: Luigi Wagner

 O Oscar nunca deve ser levado como um indicador certeiro de qualidade para a Sétima Arte.

Apesar de ser o prêmio de maior destaque, provavelmente, da indústria do entretenimento como um todo, a premiação feita pela Academia de Artes e Ciências é, acima de tudo, política.

Além das comuns campanhas que vários dos grandes estúdios fazem pelos seus filmes todos os anos, o sistema de votação para o Oscar é também, no mínimo, peculiar: levando em conta a ordem de preferência dos filmes indicados por cada membro votante, a votação, ao invés de favorecer os filmes mais votados, favorece aqueles menos desgostados – ou seja – não é o melhor filme que prevalece, mas sim aqueles que menos ficaram ao final das listas de votação.

Apesar disso tudo, ainda assim, é inegável: o Oscar é uma premiação extremamente divertida de se acompanhar. Seja pelo fato de ser revigorante ver alguns dos melhores filmes do ano serem reconhecidos apropriadamente, seja pelo fato de ser simplesmente instigante tentar prever os resultados do prêmio (e prever os vencedores de cada categoria é muito mais fácil do que você imagina – bastando observar de perto as premiações dos sindicatos que o precedem [e não, a piada denominada de Globo de Ouro não é uma delas]).

Neste quesito, o Oscar 2017 (com data marcada para o próximo domingo, 26) não vai ser muito diferente.

Dito isso, a cerimônia neste ano certamente ganhará uma conotação política bem mais pesada do que de costume. Quer seja pela celebração do acerto da Academia em apostar em uma diversidade maior de indicados (fruto da bem-sucedida campanha “Oscar So White” do ano passado), ou, especialmente, devido ao clima de euforia política que os Estados Unidos vivencia – com um presidente no poder que é vastamente reprovado por 99% de Hollywood – sendo esperados, então, levas de discursos de protestos às suas políticas (O iraniano Asghar Farhadi, provável vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por O Apartamento, estaria proibido de adentrar o país para receber seu prêmio devido às medidas de banimento instituídas por Donald Trump).

Esse direcionamento político, no entanto, não poderia se mostrar mais relevante – afinal de contas – por ser inerentemente progressista, o papel da arte é justamente apontar a atenção para problemas do mundo real causados pela falta de perspectiva alheia ancoradas em ideias retrógradas – sendo então instrumento poderosíssimo para a “abertura dos olhos” a outras visões de mundo – e considerando a escala e o prestígio da premiação, a Academia certamente poderá causar impacto positivo efetivo neste campo.

Mas não é só o tom da cerimônia que se ambientará nesta área: com múltiplos filmes indicados que não hesitam em trafegar o mundo das discussões políticas contemporâneas (vários, inclusive nesta lista), o Oscar 2017 promete trazer a tona reflexões relevantes acerca do caótico status quo que o mundo inteiro parece vivenciar no momento.

Com obras que tratam de temas que vão desde a aceitação pessoal até a discussão sobre a futilidade dos conflitos humanos, analisando particularmente os indicados ao prêmio de Melhor Filme, confira então a seguir uma pequena discussão sobre cada um destes – da clássica maneira: “do pior ao melhor”.

9 – Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)

Diretor: Mel Gibson

Probabilidade de vitória: 0%

Também indicado a: Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Montagem, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som.

Baseado em uma história real, Até o Último Homem conta a história de Desmond T. Doss (Andrew Garfield), um indivíduo que, durante a Segunda Guerra, com o objetivo de trabalhar como médico no campo de batalha se alista ao exército norte-americano.  Diferentemente do que se é esperado do contexto, porém, Desmond se recusa a sequer encostar em uma arma (nem mesmo para efeito de treinamento), tendo sua convicção religiosa essencialmente como a bússola moral movimentadora de todas suas ações.

Contando com um primeiro ato pavoroso que tenta estabelecer o trauma “moldador” de Desmond de forma que não poderia ser mais rasa, Até o Último Homem ainda perde uma dose considerável de tempo “construindo” um romancezinho barato e artificial entre Desmond e a enfermeira Dorothy Schutte (Teresa Palmer) que só poderia ser rivalizado por alguma novela das oito (não bastasse isso, o filme basicamente descarta essa ponta narrativa nos dois atos seguintes, mostrando apenas um dos alarmantes indicativos de inconsistência que permeiam toda a projeção).

Servindo também como um grande sermão religioso, Hacksaw Ridge é um exemplo didático da completa falta de sutiliza característica dos trabalhos de Mel Gibson: com um amontoado de imagens que pretendem essencialmente canonizar Desmond Doss (em determinado momento próximo ao final do filme temos um plano elevando o protagonista aos céus com a luz do sol envolvendo seu corpo e em outro o vemos lavando o sangue do corpo em uma imagem reminiscente diretamente daquela de Jesus em A Paixão de Cristo), o diretor nem ao menos disfarça o intuito de seu personagem estar sendo movido segundo uma “força maior” (quando pede clamor a Deus em certo instante é claro que Doss ouve uma chamada logo em seguida).

Ainda que espetacular na condução das sequências de guerra (e neste sentido o diretor, de fato, merece aplausos), Até o Último Homem ainda faz questão de mostrar uma equivocada hipocrisia por parte de Gibson: se o filme assume o ponto de vista de seu protagonista de criticar a violência da guerra (como claramente o faz), é no mínimo um tanto contraditório que o diretor faça questão de romantizá-la em outros momentos, como naquela sequência que abre o filme e uma daquelas que o encerra (sendo basicamente uma versão em “balé” de tiros e miolos voando para todos os lados).

Comprovando mais do que nunca sua obsessão descarada com a violência (como se A Paixão de Cristo e Apocalypto já não o tivessem deixado claro), Até o Último Homem é um atestado de que Mel Gibson é um indivíduo que merece ser estudado.

8 – Um Limite entre Nós (Fences)

Diretor: Denzel Washington

Probabilidade de vitória: 0%

Também indicado a: Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado.

Adaptado diretamente da homônima peça teatral Fences, de August Wilson, Um Limite entre Nós acompanha o lixeiro Troy Maxon (Denzel Washington), que frustrado com o emprego e com basicamente tudo mais que o cerca, vive seus dias fazendo grandes monólogos (normalmente de forma humorada [pelo menos para si]) para sua esposa Rose (Viola Davis), seus filhos Cory (Jovan Adepo) e Lyons (Russell Hornsby) e seu melhor amigo Bono (Stephen Henderson), ao mesmo tempo em que tem que se preocupar com seu irmão Gabe (Mykelti Williamson), que sofre de agravados distúrbios psiquiátricos.

Dirigido por Denzel Washington (que como ator sempre exibiu um carisma inegável), Um Limite Entre Nós adota sua origem teatral como essência narrativa do início ao fim, de forma que a impressão durante boa parte da projeção é de que estejamos acompanhando, de fato, uma peça teatral sendo encenada em tela. Infelizmente, esta abordagem de Washington se mostra notavelmente ineficiente para um longa-metragem durante boa parte do tempo.

Pendendo essencialmente de suas performances centrais para efeito de sucesso (e Washington e Davis, como esperado, oferecem performances excelentes), Um Limite Entre Nós faz pouco no resto que justifique seus longos 139 minutos de duração (especialmente considerando a natureza cansativa e incessante dos diálogos) – no final das contas se provando uma obra que, apesar de funcionar competentemente no Teatro, se mostra cinematograficamente frágil – ao menos quando adaptada de forma tão literal como aqui.

7 – Lion: Uma Jornada para Casa (Lion)

Diretor: Garth Davis

Probabilidade de vitória: 0%

Também indicado a: Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha-sonora Original, Melhor Fotografia.

Inspirado em uma história real, Lion conta a história de Saroo (Sunny Pawar e Dev Patel), um garoto que depois de se perder de seu irmão em uma estação de trem na Índia aos cinco anos, é adotado por um casal australiano (Nicole Kidman e David Wenham). 25 anos depois o garoto (já homem) decide ir atrás de sua família biológica, utilizando de vários métodos de pesquisa (incluindo o Google Earth…) para tal feito.

Tipo de filme que, querendo ou não, parece surgir da forma que surge meramente como aspiração ao Oscar antes de qualquer pretensão cinematográfica maior, Lion é um filme que não faz muito para sair do âmbito do “bonitinho”.

Vivido por Dev Patel em sua versão adulta de forma quase unicamente monotônica (essencialmente um indivíduo deprimido o tempo todo), o filme não faz o melhor dos trabalhos em explorar as razões do comportamento do protagonista de forma que vá além da busca por sua família, consequentemente não atingindo o nível de empatia pelo personagem claramente pretendido pelo roteiro.

Beneficiado por um elenco geralmente competente (Kidman é a única que extrapola verdadeiramente em sua composição), Lion ao menos consegue sucesso de maneira destacável em seu clímax, com uma sequência que, mergulhada no círculo intimista de afeição daquelas pessoas, consegue extrair a força dramática que o resto do filme parece carecer.

Do mais, é bonitinho.

6 – A Qualquer Custo (Hell or High Water)

Diretor: David Mackenzie

Probabilidade de vitória: 0%

Também indicado a: Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem.

Acompanhando os irmãos Toby Howard (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster) que, através de assaltos sucessivos a bancos no oeste do Texas, procuram juntar dinheiro o suficiente para salvarem o rancho da família ao mesmo tempo em que são perseguidos pelos policiais Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e Alberto Parker (Gil Birmingham), A Qualquer Custo é um exercício de gênero policial/western em seu cerne.

Tendo como pano de fundo o árido e miserável cenário social do Texas, o filme é também um retrato, mesmo que tangencial, das dificuldades enfrentadas por uma população que parece ter abandonado qualquer esperança de recuperação positiva nas últimas várias décadas.

Sendo também um competente filme policial, A Qualquer Custo possui sua boa dose de cenas de perseguição características do gênero que, lideradas por um ótimo elenco, conseguem passar a necessária urgência que pretendem.

Tropeçando por ocasionalmente insistir em momentos que, achando estar desenvolvendo de forma efetiva seus personagens (mesmo que não esteja), acabam prejudicando de maneira severa o ritmo da narrativa, comprometendo o momentum de sua trama, e consequentemente, o interesse do espectador, A Qualquer Custo ainda se mantem ao menos um bom exemplo do Cinema ao qual pertence – mesmo estando longe de figurar no patamar de outras obras similares, como Onde os Fracos Não tem Vez.

5 – Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures)

Diretor: Theodore Melfi

Probabilidade de vitória: 0%

Também indicado a: Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz Coadjuvante.

Adaptado do livro de Margot Lee Shetterly, Hidden Figures, Estrelas Além do Tempo acompanha Katherine Johnson (Taraji P.Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três matemáticas que atuaram como figuras importantíssimas “nos bastidores” da realização dos projetos da NASA que levaram o homem ao espaço na década de 60.

Já relevante pelo simples fato de finalmente apontar os holofotes para mulheres que injustamente não tiveram a marca na história que tanto mereciam, Estrelas Além do Tempo é um filme que ainda consegue ser surpreendentemente divertido durante boa parte do tempo, em especial devido ao carisma de suas protagonistas.

Vividas com o devido peso emocional, força de presença e bom-humor por Henson, Spencer e Monáe, as três mulheres que comandam a trama fazem um ótimo trabalho em manter a carga dramática da história, ao mesmo tempo em que mantêm o espectador engajado em cada uma de suas três subtramas.

Importante ainda por demonstrar vários dos absurdos segregadores que habitavam a sociedade de forma tão casual há tão pouco tempo (bebedores, banheiros, assentos no ônibus e até bules de café separados para negros eram vistos como a regra), Estrelas Além do Tempo demonstra um retrato revoltante de um racismo que, de uma forma ou de outra, ainda habita o mundo de maneira “casual” mais de 50 anos depois.

Claramente um filme “feel good”, com um clássico arco de superação de seus personagens, Estrelas Além do Tempo pode até não se encaixar na definição de um “filmaço” – mas é um que certamente vale a visita.

4 – La La Land: Cantando Estações (La La Land)

Diretor: Damien Chazelle

Probabilidade de vitória: 85%

Também indicado a: Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha-Sonora Original, Melhor Canção Original, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Figurino, Melhor Montagem, Melhor Design de Produção, Melhor Fotografia.

La La Land é um filme superestimado. La La Land é também um ótimo filme.

Apesar de vivermos em uma era em que a internet se divide essencialmente entre detestar ou exaltar qualquer coisa que seja, ainda é possível analisar La La Land de forma objetiva, de maneira que, mesmo sendo um filme inegavelmente adorável, também se encontra longe de ser esta “obra-prima” que seus fieis tem gritado sob a base do (ridiculamente absurdo) número de indicações e prêmios que o filme tem recebido nesta temporada de premiações.

Tocando em uma feridinha extremamente sensível à Academia (os musicais e o Cinema da década de 50 e as aspirações de “se tornar alguém” em Hollywood), La La Land acompanha Mia Dolan (Emma Stone) à medida que a garota persegue o caminho de se tornar uma atriz de renome em Hollywood. Ao mesmo tempo, acompanhamos também Sebastian Wilder (Ryan Gosling), músico apaixonado em Jazz que luta pela preservação do gênero musical diariamente enquanto tenta também se estabelecer profissionalmente. Conhecendo-se e apaixonando-se (ainda que com personalidades um tanto conflitantes), Mia e Sebastian dedicam então todas as forças na perseguição de seus respectivos sonhos, ao mesmo tempo em que tentam conciliá-los com o próprio relacionamento.

Detentores de indiscutível química para contracenarem juntos (o que já havia sido provado no excelente Amor à Toda Prova), Emma Stone (uma das atrizes mais lindas e carismáticas de sua geração) e Ryan Gosling (um dos indivíduos mais charmosos da sua) demonstram uma liberdade e afinidade imensa todas as vezes que dividem uma cena – e considerando que os atores são responsáveis por guiar o filme, isso é extremamente importante.

Contando com um número de canções originais que são, em sua maioria, realmente bonitas (e o Oscar de Melhor Canção Original vai ser um dos únicos da “lavada” que La La Land fará na cerimônia realmente merecidos), o filme ainda apresenta números musicais divertidos, que ainda que careçam de originalidade por estarem sempre bebendo de clássicos do gênero, são eficientes em trazer boa parte da magia daqueles filmes para os tempos (e audiências) modernos.

Longe de ser um filme extraordinário como foi Whiplash (e aquele trabalho de Damien Chazelle, sim, deveria ter levado os prêmios que o diretor vai levar aqui), La La Land encanta e diverte – e o filme não precisa ser “o melhor filme de todos os tempos” para que reconheçamos tais méritos.

3 – Manchester à Beira-Mar (Manchester By the Sea)

Diretor: Kenneth Lonergan

Probabilidade de vitória: 5%

Também indicado a: Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro Original.

Manchester À Beira-Mar não é um filme fácil de se assistir. Não por ser ineficiente em atrair a atenção (longe de ser), mas por ser uma obra carregada de um peso dramático sufocante do primeiro ao último minuto.

Depois de seu irmão falecer, Lee Chandler (Casey Affleck) é obrigado a voltar a sua cidade natal (do nome do título) para cuidar das pendências familiares deixadas por este e as responsabilidades de seu enterro. Ao ganhar conhecimento de que em seu testamento seu irmão deixava a guarda de seu filho Patrick (Lucas Hedges) para ele, Lee se vê em um dilema que o obriga a pesar suas decisões para o futuro, ao mesmo tempo em que estas o fazem mergulhar de forma profunda em seu passado.

Vivido por Casey Affleck naquela que é potencialmente a melhor performance de sua (já frutífera) carreira, Lee é um homem que transparece tragédia desde o momento em que o vemos pela primeira vez: relutante em fazer decisões definitivas mesmo durante seu posto profissional (como zelador em um conjunto de prédiozinhos em Boston), o rapaz exibe uma clara sensação de já estar há muito anestesiado às frustrações mundanas, demonstrando uma clara dificuldade em expressar o luto ao ficar sabendo da morte do irmão.

Contando com um arco dramático que está longe de ser resoluto, ao longo de Manchester À Beira-Mar vemos o personagem lidar com o peso de assumir a responsabilidade de um adolescente de 16 anos de idade, ao mesmo tempo em que é inundado de memórias indesejadas trazidas pelo hostil e gélido clima daquela cidade.

Constantemente permeado por uma sensação de agonia emocional, Manchester À Beira-Mar é um filme sensível que reconhece que a depressão é uma doença que está longe de possuir uma solução fácil, e que seus devastadores efeitos podem ser demonstrados em diferentes graus, de diferentes maneiras.

É uma obra dolorosa de se assistir, sem dúvidas, – mas que é igualmente bela justamente por isso.

2 – Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight)

Diretor: Barry Jenkins

Probabilidade de vitória: 10%

Também indicado a: Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha-Sonora Original, Melhor Fotografia, Melhor Montagem.

Moonlight é o que aconteceria caso, ao invés de acompanhar um garotinho branco de classe média nos Estados Unidos, Boyhood acompanhasse um garotinho negro da periferia daquele país em um contexto infinitamente mais trágico.

Contando com a mesma delicadeza do filme de Richard Linklater, porém, Moonlight é um filme que, assim como Manchester À Beira-Mar, está longe de ser a mais emocionalmente enaltecedora das experiências – mas é uma cuja beleza é tamanha, que é impossível não elevá-la a um status de prestígio.

Dirigido por Barry Jenkins, Moonlight acompanha Chiron (Alex Hibbert, Ashton Sanders, Trevant Rhodes) durante três períodos de sua vida: a infância (ato denominado de Little), adolescência (Chiron) e a fase adulta (Black).

Conduzido com imensa humanidade, o filme retrata o infeliz contexto da infância do menino, quando, enquanto sua mãe (Naomi Harris) se prostitui para comprar drogas, o garoto acaba encontrando proteção e afeição no traficante Juan (vivido com uma ternura inigualável por Mahershala Ali), ou a adolescência quando, confrontado pela descoberta de sua sexualidade, o menino se vê obrigado a reprimi-la irremediavelmente, uma vez que não faltam “razões” para ser oprimido por seus colegas. Com um terceiro ato explorando ainda os efeitos de sua infância e adolescência em sua personalidade adulta ao ter se tornado um traficante de “sucesso” (é tocante vê-lo usando uma toca reminiscente daquela que era usada por Juan), Moonlight é uma obra comovente do início ao fim que explora o fato de que os danos de uma vida ditada pela repressão pessoal não poderiam resultar em uma parte final menos infeliz.

Magistral também em sua concepção técnica, o filme conta com uma fotografia e um design de produção que vão além da beleza estética: do figurino às cores que estão sempre envolvendo os personagens em seus ambientes, Moonlight utiliza dessas para complementar constantemente a natureza emocional daquelas pessoas (e o contraste entre o branco e as cores que eventualmente o preenchem dependendo do momento na história é uma decisão visual simplesmente admirável).

Repleto de humanidade, Moonlight é uma obra dotada de uma beleza pessoal destacável, sendo assim, um delicado vislumbre em uma vida desde sempre pautada na negação própria em virtude de um ambiente imperdoável.

1 – A Chegada (Arrival)

Diretor: Denis Villeneuve

Probabilidade de vitória: 0%

Também indicado a: Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Design de Som, Melhor Montagem, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Mixagem de Som, Melhor Design de Produção.

[Observação: a ausência de indicação a Melhor Atriz para Amy Adams não só é um ultraje, como é também a esnobada mais escrota pela Academia em anos]

A ficção-científica frequentemente corre o risco de soar demasiadamente fria na abordagem de suas ideias.

Apesar de se encaixar de forma inegável no âmbito do gênero, A Chegada, novo trabalho do canadense Denis Villeneuve (Os Suspeitos, Sicario, Polytechnique), consegue a proeza de ser um filme brilhante no tratamento conceitual de seus temas e – ao mesmo tempo – ser também uma obra carregada de imensa sensibilidade.

Baseado no conto Story of Your Life (1998), de Ted Chiang, A Chegada tem início quando, depois de 12 naves alienígenas pousarem em diferentes pontos do planeta, a linguista Louise Banks (Amy Adams) é chamada para ajudar a estabelecer comunicação com os visitantes. Reconhecendo a linguagem como uma expressão artística antes mesmo desta ser um meio de comunicação, Louise é acompanhada também pelo físico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner), responsável por abordar a situação sob uma “ótica matemática”.

Melancólico desde a devastadora montagem que abre o filme, A Chegada compreende com uma delicadeza dolorosa a natureza complexa dos maiores amores que sentimos: não importa o quão destrutivas certas paixões possam se provar – o conforto e o calor com os quais estas nos envolvem a priori parecem estar sempre acima de qualquer eventual dor que podem nos causar. Podemos estar plenamente cientes do estrago que eventualmente virá, mas escolhemos prosseguir em tal caminho por que nos escapa a racionalidade costumeira. É uma característica que nem mesmo a evolução conseguiu limpar ao longo de nossa existência, talvez por se tratar de algo tão inerentemente humano.

Que uma ficção-científica consiga demonstrar esse turbilhão de emoções de forma tão bela como A Chegada o faz talvez seja o motivo pelo qual, meses depois, ainda me encontro profundamente encantado por este trabalho de Denis Villeneuve.

Mas não é só dramaticamente que A Chegada se demonstra um filme excepcional: contando com uma atmosfera impecável de tensão e estranhamento criada por Villeneuve ao lado da evocativa fotografia de Bradford Young e a singular trilha de Jóhann Jóhannson, o filme conta com aqueles que são alguns dos planos e sequências mais memoráveis dos últimos anos (o primeiro plano a apresentar a nave alien envolta por nevoeiros em Montana é um que desde já figura entre as imagens mais impressionantes do Cinema recente).

O mais fascinante de tudo, no entanto, é como Villeneuve consegue o brilhante feito de espelhar o conceito temático do filme – a linguagem comunicativa –  na própria linguagem do Cinema: ao ancorar o espectador na visão de Louise (através do design de som até no uso de câmeras subjetivas), o diretor não só estabelece uma relação de identificação e compreensão para com a protagonista, mas como também, confere à montagem do filme (ferramenta instrumental da linguagem cinematográfica) um peso diretamente narrativo. Dessa forma, as sequências inter-cortadas que constantemente aparecem ao longo da projeção não servem como meros desvios de fluxo na história – mas um desvio da própria posição de perspectiva de Louise e, assim, – consequentemente – do próprio espectador. É uma estratégia que não só é absolutamente genial, como também demonstra a disciplina e o entendimento de um diretor que mostra estar em total controle da história que está contando através da linguagem utilizada para contá-la (o Cinema).

Possuindo ainda uma camada de conotação política que denota o infeliz costume do ser humano de adotar uma posição hostil frente àquilo que lhe é desconhecido, A Chegada ainda é um filme que se mostra absurdamente relevante para o contexto mundial contemporâneo, onde a divisão e o posicionamento adverso entre espectros contrários só parecem se agravar.

Belíssimo, sensível e complexo, A Chegada não é meramente o melhor filme indicado ao Oscar esse ano, ou tampouco o melhor trabalho do ano passado: A Chegada é um dos exemplos mais lindos de Cinema concebido nas últimas décadas.