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Análise – The Last Guardian

The Last Guardian

The Last Guardian
9

História

10/10

    Jogabilidade

    8/10

      Design

      9/10

        Apresentação

        9/10

          Equalizador

          10/10

            Pros

            • Trico
            • Desenvolvimento da relação entre o garotinho e a criatura
            • Direção de arte e animações fabulosas
            • Quebra-cabeças instigantes
            • Sequências de ação grandiosas

            Cons

            • Framerate inconsistente
            • Câmera ocasionalmente inoportuna

            Por: Luigi Wagner

            Há elementos em nossas vidas aos quais decidimos prestar a devida admiração e respeito somente após estes já terem sido há muito deixados para trás.

            The Last Guardian, novo trabalho de Fumito Ueda, é uma obra que compreende que o início de fatos memoráveis é constantemente marcado por frustrações e dúvidas, mas que em última análise, são perfeitamente compreensíveis vista a grandiosidade que sua finalidade representa.

            Primeiro jogo de Ueda em mais de uma década, The Last Guardian foi fruto de um torturado processo de desenvolvimento que se arrastou por anos a fim, transitando não só gerações de consoles, como também o próprio contexto da indústria desde o início de sua produção.

            “Sucessor espiritual” da obra-prima do Playstation 2, Shadow of the Colossus, o jogo trás consigo vários dos elementos que faziam seu antecessor brilhar, mas em um contexto notavelmente diferente.

            Acompanhando um garotinho sem nome e a criatura grandiosa denominada pelo primeiro de Trico (“prisioneiro”, do japonês toriko), a história do jogo – contada na estrutura de um flashback pelo garoto no futuro – tem como principal conflito a tentativa de ambos de escaparem das ruínas nas quais se encontram presos.

            O contexto de “fuga” ambientado pela história, porém, serve apenas como norte para a construção e desenvolvimento da relação entre o menino e o animal, que não só é a força central da narrativa, como o principal responsável pela beleza incomparável de The Last Guardian.

            O maior triunfo de The Last Guardian não está na trama que envolve a história de nossos dois protagonistas (relegar Trico a posição de coadjuvante seria um crime), mas sim na forma como Ueda e seu time decidem contá-la. Assim como em ICO (primeiro jogo desta “trilogia”) e em Shadow of the Colossus, The Last Guardian parte do princípio da dependência mecânica de seus “companheiros” para que esta, eventualmente, se traduza em dependência emocional por parte do jogador para com estes. Dessa maneira, se a garotinha Yorda de ICO, a égua Agro de Shadow of the Colossus e Trico de The Last Guardian são, a primeira instância, apenas “ferramentas” para que o jogador consiga atingir seus objetivos, logo este é pego de surpresa ao constatar que a objetividade de suas ações é tomada por uma subjetividade emocional que passa a ser a verdadeira força-motriz por trás de suas ações.

            Assim, se no início do jogo tomamos a providência de alimentar Trico com barris apenas para fim de domínio ou estabelecimento de confiança, mais a frente da aventura o fazemos puramente por preocupação e carinho ao animal – ou mesmo, o fato de acariciarmos a criatura para acalmá-la após alguma situação de stress – algum tempo depois passamos a fazê-lo por simples efeito de demonstração de afeto a esta.

            No entanto, o jogo faz questão de desenvolver este panorama emocional de forma que não poderia ser mais perfeitamente sútil: raramente recorrendo a palavras para expressar o contexto dramático no qual o garoto e Trico se encontram, o jogo pende majoritariamente de sons e – principalmente – da linguagem corporal para a construção de empatia.

            E aqui é preciso salientar o fato de Trico ser uma das mais belas, impressionantes e realistas criações digitais de qualquer tipo de vida em um game até hoje – ser humano ou não – mesmo se tratando de uma criatura puramente fantástica. Se visualmente o animal combina aspectos das mais diversas criaturas – da estrutura facial de um cachorro até imensas asas que rementem a majestosas aves – é notável que em seu comportamento consiga também transcender uma combinação de maneirismos de outros animais, mas ao mesmo tempo, manter um senso de personalidade inigualável. Dessa forma, se você tem ou já teve algum animalzinho de estimação, será fácil reconhecer em Trico aspectos familiares de seu bichinho em casa que lhe levarão a abrir um sorriso diferente do que um jogo costuma provocar (honestamente, mesmo se você não tem a melhor das experiências com animais, é virtualmente impossível não ser contagiado pela empatia de Trico).

            Este realismo demonstrado no comportamento de Trico se estende também para a interação do jogador para com este – para o melhor ou para o pior.

            Trico dificilmente responderá aos seus comandos imediatamente, em especial nas primeiras horas de jogo – o que pode levar aos jogadores menos pacientes a desistirem de prosseguir com o resto da jornada. O fato é: a natureza desta frustração está em muito vinculada com a natureza do contexto narrativo: Trico é um animal – e como é de se esperar de uma criatura não-humana – a comunicação dificilmente será feita de forma integralmente efetiva, especialmente quando não há um senso de confiança pré-estabelecido como no início da história. Assim, é difícil culpar o jogo (ou mesmo a inteligência artificial da criatura) por falta de obediência imediata a seus comandos, uma vez que estes são parte integral da narrativa. Mesmo os controles do próprio garoto podem se mostrar pesados às vezes, mas que são, de novo, importantes para o estabelecimento de um sentimento de fragilidade e pequenez no jogador frente à grandiosidade daquele mundo.

            No entanto, não é como se The Last Guardian fosse livre de problemas técnicos: o jogo, mais que ocasionalmente, tropeça gravemente em termos de performance, com algumas seções sendo responsáveis por quedas violentas na taxa de frames por segundo ou a câmera do jogo se posicionando em lugares inapropriados, inabilitando uma visão adequada da ação pelo jogador. São problemas que, no escopo geral, estão longe de detrair da experiência como um todo – mas que certamente podem gerar alguns momentos de frustração quando persistem.

            Dito isso, no resto dos artefatos técnicos, The Last Guardian volta a exceder: com um trabalho de animação absolutamente estupendo por parte dos animadores da Gen Design, o jogo apresenta algumas das animações mais impressionantes que já vi em um game até hoje. Dos movimentos corporais do garoto que se adequam perfeitamente ao contexto ambiental de onde o jogador está até pequenos traços que ressaltam a vulnerabilidade do menino, é um trabalho digno de aplausos. Apesar disso, é mesmo Trico que novamente rouba a maior parte das atenções – o que não é atoa, visto o quão essenciais as animações são para a criação verossímil do animal. De pequenos detalhes como a hesitação da criatura antes de realizar um grande salto, a forma como este chacoalha a água do corpo depois de sair de um lago, até as sensíveis expressões de dor em momentos mais climáticos da história, não é difícil apontar Trico como uma verdadeira obra-prima da criação tecnológica.

            Em termos de identidade visual The Last Guardian volta a transpirar personalidade singular assim como ICO e Shadow of the Colossus o faziam – trazendo vários dos conceitos visuais daquelas obras, mas ao mesmo tempo demonstrando personalidade própria. Com imensas edificações de pedras “amareladas” com traços da natureza envoltos com folhagens cobrindo estas, a direção de arte do jogo faz um trabalho fantástico que, em conjunto com o formidável level design do mundo, consegue contar uma história puramente através da ambientação – evocando, adequadamente, ora um senso de tensão, ora um senso de maravilha.

            Combinando a filosofia de design de seus predecessores, The Last Guardian possui em momento-a-momento uma estrutura semelhante a ICO, no sentido de consistir em uma leva de variados e instigantes quebra-cabeças para a resolução com a ajuda de seu companheiro, mas que em escala e epicidade remete diretamente a Shadow of the Colossus – e neste sentido The Last Guardian é um verdadeiro épico de fantasia (com a extraordinária trilha de Takeshi Furukawa certamente elevando tais aspectos). Dessa forma, a história do jogo flui perfeitamente entre momentos íntimos a momentos grandiosos, sem nunca parecer encaixar sequências monumentais unicamente para efeito de espetáculo, mas sim para efeito de culminação dramática – executando esta “dança” com enorme maestria.

            Todo este cuidado em construção de sistemas e mundo que The Last Guardian tem está claramente a serviço do estabelecimento de um vínculo emocional entre o garoto (uma extensão do jogador) e Trico – e Ueda e sua equipe deixam isso claro desde os primeiros minutos de jogo.

            O mais belo, porém, de toda esta carpintaria narrativa que The Last Guardian apresenta (e que certamente só poderia ser construída desta forma em um jogo) é a compreensão do fato que todo tipo de relacionamento de relevância em nossas vidas é fundamentado na fragilidade de nós como indivíduos e a capacidade que temos de ajudar a compensar a fragilidade do outro através do ato de se relacionar, tendo em troca, nossas deficiências também sanadas de acordo.

            É uma análise que pode parecer restrita ao relacionamento humano, mas que The Last Guardian consegue, de alguma forma, demonstrar com uma sensibilidade imensa em um relacionamento com uma criatura fantástica.

            Assim, ao final da jornada, eu não mais me lembrava dos momentos de frustração que Trico havia me causado no início, já que foram suas virtudes que certamente haviam deixado a marca – me levando a desejar genuinamente a recomeçar a história do início para que pudesse demonstrar a Trico a verdadeira importância e paciência que este merecia.

            Provocar reflexões acerca do mundo real é o que toda boa Arte faz – que The Last Guardian consiga o fazer mesmo se tratando de um épico fantasioso é algo, no mínimo, louvável.