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Análise – Rise of The Tomb Raider

Rise of the Tomb Raider

Rise of the Tomb Raider
9.2

História

8/10

    Jogabilidade

    9/10

      Design

      10/10

        Apresentação

        9/10

          Equalizador

          10/10

            Pros

            • Força residente em Lara como protagonista
            • Estrutura de mundo
            • Encorajamento constante à exploração
            • Mecânicas de plataforma, movimento e combate competentes
            • Visualmente impressionante

            Cons

            • Falta de aprofundamento no desenvolvimento de Lara
            • Ocasionais problemas de ritmo na história

            Por: Luigi Wagner

            Veterana no universo dos games, em seus vinte anos de existência, Lara Croft conquistou um vasto leque de fãs entre todas as idades e sexos.

            Com uma áurea já nostálgica, a personagem já ultrapassou há muito o status de ícone na indústria na qual nasceu para atingir um nível de relevância até mesmo em meios mais mainstream, como no Cinema, com duas interpretações da musa Angelina Jolie em Lara Croft: Tomb Raider (2001) e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida (2003) e com um vindouro novo filme com Alicia Vikander assumindo o papel da heroína previsto para meados de 2018.

            Apesar da iconografia da personagem, Lara Croft chegou a passar alguns bons anos fora dos holofotes – fosse pela ausência de novas entradas na série ou pela mediocridade de algumas das que compuseram seu legado na segunda metade da última década.

            Foi então que em 2013, nas mãos da Crystal Dynamics (que já havia comandado alguns dos jogos da série) que a franquia voltou à relevância com o excelente reboot intitulado apenas Tomb Raider.

            Com uma direção “nolanesca” (nas veias de Batman Begins de Christopher Nolan), a série ganhou um contorno mais realista e cru do que estávamos acostumados com a franquia, nos apresentado a uma personagem notavelmente mais humana e frágil (no sentido de realismo) do que as interpretações da protagonista que conhecíamos antes – atingindo louvável sucesso na empreitada.

            Assim, de uma personagem com uma raiz obviamente sexualizada com seus shortinhos curtos e enormes peitos pontudos, nascia uma nova Lara Croft – uma que não só subvertia seu padrão de imagem anterior – mas que também se cimentava como um dos mais relevantes, destacáveis e necessários exemplos do feminismo nos videogames.

            Quase três anos depois, a Crystal Dynamics lança então o novo passo desta nova formatação da franquia com Rise of the Tomb Raider que, inicialmente disposto exclusivamente no Xbox One e (pouco depois) no PC (um tanto irônico considerando sua raiz no primeiro console da Sony), agora chega ao Playstation 4 na versão de comemoração de vintes anos da franquia: Rise of the Tomb Raider: 20 Year Celebration.

            HISTÓRIA

            Um ano depois dos eventos de Tomb Raider, na tentativa de explicar sua experiência com o sobrenatural vivenciada em sua última jornada, Lara (Camilla Luddington) recorre às pesquisas de seu falecido pai a respeito da cidade perdida de Kitezh e a promessa de imortalidade que a mitológica cidade supostamente oferece.

            Viajando para a Síria na busca da tumba do Profeta da Constantinopla (figura central na lenda de Kitezh), Lara descobre que uma secular organização denominada de “Trindade” também está atrás da cidade perdida, porém com intuitos finais perigosamente ameaçadores.

            Depois de um confronto inicial com a Trindade e seu líder Konstantin (Charles Halford) na tumba que praticamente acaba aos pedaços, Lara se desloca para as congeladas montanhas da Sibéria, onde deve correr contra o tempo para impedir que Konstantin e sua organização cheguem a Kitezh primeiro.

            Estruturalmente familiar no quesito do gênero em que habita, Rise of the Tomb Raider está longe de reinventar o modelo de tramas de aventura – o que não necessariamente diz demérito com relação ao tom que esta nova história de Lara Croft procura estabelecer.

            O elemento dramático central de Rise of the Tomb Raider porém, não está na descoberta em si dos segredos e conspirações históricas, mas sim no conflito pessoal vivenciado pela protagonista ao longo do jogo.

            Possuindo em seu cerne a obsessão pessoal de Lara para com o descobrimento de tais segredos e o legado de seu pai, a trama procura explorar de forma mais aprofundada o que faz da protagonista a mulher obcecada por história e aventura que é – no processo conseguindo eficácia com relativo sucesso.

            Se no jogo anterior a transformação de Lara de uma garota frágil e inocente em uma mulher disposta a fazer tudo para arcar com o peso de sobreviver em um contexto de perigo era feita de uma maneira pouco sutil, quase que o mesmo pode ser dito a respeito da exploração da protagonista na continuação.

            Desta forma, o arco dramático de Lara abrange pouco mais do que a tentativa da garota de compensar com uma obsessão pessoal compartilhada com o pai a ausência deste durante sua infância – com o roteiro de Rhianna Pratchett muitas vezes recorrendo ou a um sentimentalismo desmerecido ou a exposição óbvia para explicitar as emoções dos personagens.

            Para efeito de comparação, seu colega de gênero lançado mais cedo neste ano, o extraordinário Uncharted 4: A Thief´s End, possuía como drama central o mesmo dilema de natureza pessoal de Lara Croft aqui, com a diferença de atingir um nível de construção de um estudo de personagem infinitamente mais eficaz do que o da protagonista em Rise of the Tomb Raider, de forma que o espectro psicológico de Nathan Drake nunca era de natureza binária, mas sim um amontoado de emoções e sentimentos complexos – o que infelizmente não pode ser dito a respeito de Lara.

            Ineficiência em aprofundamento a parte, a protagonista ainda consegue exibir um magnetismo e força de presença imensa – de maneira que torçamos por ela do início ao fim da história. E, ainda que sejam raras, certas passagens da história ainda conseguem surpreendente eficiência dramática na forma como são apresentadas pelas belas cutscenes, com vários créditos novamente devidos à performance da bela Camilla Luddington, que encarna a protagonista com reconhecível expressividade. Vale ressaltar também que as duas principais figuras vilanescas da história – Konstantin e Ana (Kay Bess) – não são resumidos a meros estereótipos, de modo que suas motivações até se sustentem durante boa parte do tempo.

            Apesar de não explorar todo o potencial residido em sua protagonista, Rise of the Tomb Raider ainda consegue manter o interesse do jogador na história que conta tanto pelo tom de aventura que a envolve, quanto pela força de uma personagem que prova que você não precisa ser um homem para protagonizar uma trama de aventura intensa e empolgante.

            Ao rolar dos créditos, a sensação que tive era a de querer acompanhar Lara por mais quantas jornadas a Crystal Dynamics decidir conceber – o que diz bastante ao espirito de Rise of the Tomb Raider.

            JOGABILIDADE

            Se no âmbito do gênero narrativo Rise of the Tomb Raider naturalmente invoca uma comparação à franquia de aventura estrelada por Nathan Drake, no espectro da jogabilidade e do design o jogo prova que, nos videogames, um mesmo gênero de história pode dar origem a obras completamente diferentes.

            Com uma estrutura de semi-mundo-aberto/metroidvaniana, Rise of the Tomb Raider dispõe ao jogador vastos ambientes que anseiam por exploração, estes interconectados formando um extenso mundo de maior escala.

            Liberando as áreas de forma progressiva ao longo da história, lugares que ainda não devem ser acessados são normalmente bloqueados por alguma habilidade específica que Lara deve obter para, eventualmente, conseguir acesso ao local (uma corda específica, um gancho balançante, um tipo especial de flecha…). Tais áreas são interconectadas organicamente de forma extremamente coesa pelo brilhante design do jogo, de modo que a obtenção de uma nova habilidade e o eventual retorno à algum ambiente passado do mundo para a liberação de uma área previamente desconhecida sejam acompanhados de uma sensação de realização salutar.

            Guiando o jogador de maneira natural pelo mundo sem dar a impressão de estar segurando sua mão, Rise of the Tomb Raider consegue ser um jogo sublime na arte de exploração – o que é honestamente perfeito considerando o contexto de aventura da obra (ainda que hora ou outra, o empenho sentido em explorar o resto do mundo sacrifique o ritmo da narrativa em momentos que exigem maior urgência na história). Seja na exploração das florestas, das montanhas enevoadas, das bases inimigas ou das tumbas, o design de jogo leva a “profissão” de Lara Croft ao pé da letra com extrema eficácia.

            Vale apontar também que as tumbas que dão nome a franquia também marcam presença de forma muito mais abrangente aqui do que no game anterior (que essencialmente limitava essas a explorações paralelas à história principal), com tumbas extraordinariamente bem concebidas – tanto do ponto de vista do design quanto do ponto de vista visual – ao longo da trama e para a exploração alheia.

            Mecanicamente mais que competente, Rise of the Tomb Raider consegue a proeza de tornar Lara Croft quase que uma extensão do jogador na hora do controla-la.

            Com mecânicas de travessia responsivas, realizar as mais diversas e variadas acrobacias nas seções de plataforma do jogo é sempre divertido (e ocasionalmente até desafiador), sendo que o processo só vai se tornando mais complexo e inteligente à medida que o jogador evolui suas habilidades.

            Ao longo da jornada, Lara também se depara com uma variedade igualmente inteligente de quebra-cabeças a serem resolvidos, que têm suas resoluções sempre amparadas na exploração do contexto para o descobrimento de artefatos ou na pura “física” dos objetos envolvidos.

            Na hora dos combates, Rise of the Tomb Raider também não desaponta: assim como no jogo anterior (ou também em jogos semelhantes como The Last of Us e Uncharted 4), o jogador tem a sua escolha a furtividade ou os combates cara-a-cara para aproximar os cenários de conflito, com uma inteligência artificial desafiadora por parte dos inimigos que amplifica o sentimento de urgência que normalmente permeia tais ocasiões. O jogo não necessariamente tem as melhores mecânicas de tiro ou de stealth, mas a sensação de se eliminar um inimigo (como por uma flechada certeira na cabeça) é sempre recompensadora.

            O jogo também apresenta um sistema de crafting que permite a Lara criar bombas, coquetéis molotov, flechas explosivas e afins a partir de recursos encontrados nos cenários, adicionando uma camada a mais às opções de combate.

            Com um sistema de evolução de habilidades e ferramentas intuitivo e estimulante, é também possível evoluir Lara nos recursos que você melhor preferir – seja nas áreas de Combate, Sobrevivência ou Caça – além de contar também com uma extensa evolução de armas e aparatos usados pela protagonista.

            Fabuloso do ponto de vista do design de seu mundo e no uso de suas mecânicas para o aproveitamento deste, Rise of the Tomb Raider evoca um senso de anseio por exploração raro nos videogames, de forma a me compelir a voltar atrás para perseguir o status de 100% de completude do jogo, tamanha sua competência em lhe colocar nas botas de um explorador (a) como Lara Croft.

            APRESENTAÇÃO

            Visualmente deslumbrante, Rise of the Tomb Raider consegue estar a par das ambições de seu contexto narrativo.

            Com paisagens belíssimas (prepare para fazer uma leva de screenshots), a direção de arte da Crystal Dynamics consegue atribuir variedade às várias locações visitadas por Lara ao longo da história (mesmo que essa se passe basicamente na Sibéria). Das montanhas geladas, às florestas de verdes vibrantes em suas vegetações até às espetaculares tumbas históricas, Rise of The Tomb Raider raramente isenta o jogador do sentimento de novidade.

            As cutscenes que permeiam a jornada também são particularmente belas. Com uma fotografia esteticamente aprazível na concepção destas, as “cenas de corte” impressionam também especialmente devido a fidelidade gráfica do jogo, com modelos de personagens extremamente bem feitos (com destaque para Lara) que, amparados pelo processo de facial e motion-capture, conseguem trazer a vida as performances do elenco e pequenos detalhes na expressividade dos indivíduos.

            Ocasionalmente apenas mostrando uma isenção de polimento – como no modelo in-game de Lara contraposto com sua versão nas cutscenes – (o que se deve provavelmente ao fato do jogo ter tido uma versão para o Xbox 360 no ano passado), Rise of the Tomb Raider ainda consegue se manter como uma obra quase que uniformemente impressionante no departamento técnico.

            CONCLUSÃO

            De forma sucinta, Rise of the Tomb Raider é um jogo fantástico.

            Apesar de não explorar todo o potencial narrativo de Lara Croft como uma personagem multidimensional, o jogo compensa em essencialmente todos os seus outros aspectos – seja na excepcional concepção de sua estrutura de mundo ou na apresentação visual deste.

            E no final das contas, Lara Croft ainda consegue carregar uma aventura com muito mais facilidade que muito “mocinho” no Cinema ou mesmo nos games por aí afora.

            Por fim, é inegável o sentimento de anseio por mais aventuras estreladas pela protagonista ao rolar dos créditos finais, de forma que podemos apenas esperar que uma eventual sequência não só nos dê um vislumbre maior de Lara, mas como também nos dê mais do que faz Rise of the Tomb Raider tão formidável.