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Análise – Mirror’s Edge: Catalyst

Mirror's Edge: Catalyst

Mirror's Edge: Catalyst
8.825

História

8/10

    Jogabilidade

    9/10

      Design

      9/10

        Apresentação

        10/10

          Pros

          • Jogabilidade fluída e empolgante
          • Estrutura e design do mundo
          • Esteticamente belíssimo
          • Universo com extremo potencial

          Cons

          • História previsível
          • Falta de aprofundamento nos personagens
          • Ocasionais quedas na framerate

          Mirror's Edge Catalyst

          Por: Luigi Wagner

          Lançado há oito anos ao status de cult, Mirror´s Edge foi uma aposta audaciosa por parte da DICE (Battlefield, Star Wars: Battlefront) e da EA Games na época.

          Sendo um jogo que tinha como mecânica central o fascinante esporte francês denominado parkour – entrelaçada com fracos momentos de tiroteios forçados – Mirror´s Edge fez os olhos de muitos brilharem então (como os do redator que vos escreve) – ainda que com seus evidentes problemas.

          Havia algo de especial ali: fossem os momentos de adrenalina eletrizantes gerados ao controlarmos a protagonista Faith, ou fosse a maravilhosa cidade que servia como pano de fundo para o desenrolar da trama – o game transpirava um ar de originalidade raro.

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          Apesar da singularidade, Mirror´s Edge não foi o sucesso que EA esperava. Vendendo um número apenas aceitável de cópias, o game foi relegado a se tornar uma das pérolas mais injustamente esquecidas da geração passada.

          Foi estranho então quando, há cerca de três anos, a companhia anunciou que traria a franquia de volta dos mortos.

          Anulando os eventos do primeiro jogo, a “sequência” – intitulada Mirror´s Edge: Catalyst – serve como um novo começo para a série – um reboot propriamente dito.

          Será que Faith finalmente veio para ficar?

          HISTÓRIA

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          Mirror´s Edge: Catalyst se passa em um mundo situado em um futuro distante, onde a sociedade é regida por um governo totalitário que é amplamente amparado no apoio das grandes corporações.

          Na cidade de Glass (“Cidade de Vidro”), uma das grandes famílias corporativas no poder é aquela chefiada pelo magnata Gabriel Kruger (Michael Rose). Fornecedor de grande parte da tecnologia presente, Kruger é quem rege a cidade – dizendo como seus cidadãos devem se portarem ou não.

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          Neste contexto conhecemos Faith Connors (Faye Kingslee). Jovem de espirito rebelde, a garota, recém-liberada da prisão por confusões com a autoridade, volta a se alinhar com os Runners (“Corredores”) – grupo de indivíduos que se posicionam com relativa neutralidade diante do regime vigente, ainda que constantemente realizando atividades que possam contrariar este.

          Tendo como “espaço de trabalho” os telhados da cidade de Glass, Faith e seus colegas de profissão começam a se verem envolvidos em uma grande conspiração arquitetada por Gabriel Kruger, com implicações na vida pessoal da garota muito maiores do que inicialmente imaginado.

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          Servindo como uma clara história de origem para Faith – com contornos dignos daqueles que vemos em histórias centralizadas em super-heróis – o roteiro de Mirror´s Edge: Catalyst se mostra disposto a explorar o que faz de nossa heroína a pessoa que é.

          Através de sua relação com Noah (Jim Pirri), indivíduo que serve como uma espécie de figura paterna de Faith, somos levados a conhecer um pouco mais sobre os problemas de confiança da garota para com a grande maioria das outras pessoas – estes materializados na rebeldia incessante demostrada pela protagonista.

          Este aprofundamento no cerne pessoal de Faith, no entanto, não é conduzido com a maior das primazias pelo roteiro de Christofer Emgård. Se amparando demasiadamente em constantes flashes sobre um mesmo evento decorrido na infância de Faith como artifício para criação de peso pessoal para a história, a narrativa nunca atinge a relevância emocional pretendida pela mesma.

          Desta forma, apesar de até fazer um bom trabalho em compor a personalidade forte de Faith, a atriz Faye Kingslee acaba por não ter muito espaço para explorar muitos espectros da personagem que vão além da raiva ou da pura e simples lamentação.

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          Dito isso, gosto de alguns dos trejeitos que a performance de Kingslee consegue demonstrar – principalmente através da postura de Faith: é interessante perceber a inquietude da natureza da garota (compreensível dado seu “estilo” de vida) como, por exemplo, ao se sentar de forma divertidamente descontraída nos momentos de leveza ou não, ou então ao sair correndo com uma energia jovial após uma conversa de natureza séria com alguém.

          Apesar de não ser necessariamente esplêndido no tratamento com sua narrativa, Mirror´s Edge: Catalyst ao menos nunca se mostra desinteressado na história que conta (apesar da trama em questão ser deveras previsível na maior parte do tempo e contar com uma conclusão um tanto abrupta) – demonstrando uma vontade claríssima da DICE em construir um novo universo e estabelecer suas feições temáticas – com aprazível sucesso na maior parte do tempo.

          E mesmo que o desenvolvimento de Faith como uma figura complexa não tenha recebido o melhor dos tratamentos, a protagonista exibe uma força natural evidente, podendo se transformar em uma das heroínas mais emblemáticas no panorama atual se trabalhada com um pouco mais de aprofundamento.

          JOGABILIDADE

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          Através da perspectiva em 1ª Pessoa, Mirror´s Edge: Catalyst transmite com extrema eficiência a agilidade inerente do parkour.

          Com controles simples, mas elegantes e intuitivos, a fluidez e a naturalidade incutidas no funcionamento mecânico de Catalyst fazem com que o jogador se sinta como uma prática extensão de Faith.

          Ainda que no início os controles possam aparentar um pouco rígidos ou não-responsivos, bastam alguns minutos para dar aquele “clique” e tudo começar a fazer sentido. A partir daí você começa a realizar combinações de acrobacias que, apesar de sentirem mais naturais então, nunca deixam de trazer imensos baques de adrenalina na execução.

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          Assim, Mirror´s Edge: Catalyst coloca como o centro de sua essência o movimento – encorajando o jogador a nunca permanecer parado e estar sempre engajado na euforia momento-a-momento.

          É interessantíssimo então que o jogo abandone completamente o uso de armas (algo honestamente, praticamente inédito em jogos AAA) – encorajando a movimentação como forma de defesa (através do medidor de foco) e ataque (favorecendo a realização de combos e ataques de maior impacto). E mesmo nas seções de combate, o jogo faz um ótimo trabalho em manter o momentum, com mecânicas de porrada que são muito melhores do que tinham direito de ser, fazendo uma excelente combinação da movimentação de Faith com os golpes articulados.

          O game ainda conta com um simples, mas estimulante sistema de progressão para Faith – possibilitando o jogador a melhorar de forma reconhecível as habilidades da protagonista e seus apetrechos tecnológicos. Tais apetrechos, vale notar, servem como formidáveis extensões da movimentação básica de Faith, sem parecem “trapaças” e permitindo a exploração de lugares antes inatingíveis (e neste sentido o game ganha quase que um ar reminiscente de designs metroidvanianos).

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          Se um dos problemas do jogo original era a sensação de limitação imposta pelos cenários contrastado com a liberdade de movimentação da jogabilidade, o mesmo já não pode ser dito sobre Catalyst.

          Apresentando uma estrutura de mundo-aberto, a cidade de Glass agora é livre para a exploração do jogador, ainda que se restrinja basicamente aos telhados e coberturas (o que é compreensível contextualmente), sem jamais gerar o sentimento de restrição com relação a travessia pelo mundo – fruto do excelente level/world-design dos cenários, que estimulam a elaboração de rotas de forma imediata, mas concisa.

          Para completar, o jogo ainda conta com várias missões paralelas e desafios espalhados pelo mundo (que não variam muito em estrutura) e vários e surpreendentemente encorajadores tipos de colecionáveis. É conteúdo o suficiente para lhe manter engajado em explorar Glass após ter completado a (relativamente curta) campanha principal.

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          Mirror´s Edge: Catalyst melhora, amplia e aprofunda (sem se complexar) tudo que o original apresentava, no processo se mostrando como uma experiência a parte num mundo em que a norma são jogos de tiro.

          O jogo faz um dos melhores aproveitamentos da perspectiva em uso que já foi realizado com o gênero, e movimentar Faith no pique da adrenalina pode ser muito mais empolgante do que muitos dos tiroteios nos first-person-shooters da vida por aí.

          APRESENTAÇÃO

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          Belíssimo do ponto de vista estético, Mirror´s Edge: Catalyst apresenta aquela que é uma das mais lindas e visualmente fascinantes utopias/distopias que já vi em um trabalho de ficção.

          A cidade de Glass é dona de uma personalidade inconfundível e a direção de arte utilizada pela DICE para retratar aquele universo é de uma elegância absurda: com um estilo arquitetônico simplista e o uso de cores básicas (vermelho, azul, verde, laranja, são todas usadas para efeito de realce com extremo sucesso), a beleza da cidade está justamente em sua simplicidade. Superfícies brilhantes com o mais reluzente dos porcelanatos, prédios acobertados por vidros por toda a extensão e o próprio ar de limpeza que os cenários passam são o suficiente para destacar este universo como algo único.

          Esta tranquilidade passada pelo mundo contrasta de forma perfeita com o teor eufórico da jogablidade, criando um clima singular que habita Mirror´s Edge: Catalyst do início ao fim.

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          Sob a mantra do Frostbite Engine o jogo ainda roda com admirável fluidez aos 60 frames por segundo, com ocasionais quedas aqui e ali, mas estável durante a maior parte do tempo.

          É preciso reconhecimento também para as cutscenes apresentadas durante a história. Ainda que não representem um trabalho extraordinário de fotografia nas composições, estas são sempre bem feitíssimas do ponto de vista técnico, com modelos de personagens detalhados e expressões faciais realistas a ponto de conseguirem transmitir com eficiência certas reações emocionais em momentos climáticos da história.

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          Apesar da surpreendente ausência do icônico tema do primeiro jogo, Still Alive, de Lisa Miskovsky, a trilha composta por Solar Fields para Mirror´s Edge: Catalyst é também de extrema excelência. Pautada em faixas Techno/eletrônicas, a trilha de Fields carrega com adequada energia e personalidade o mundo e a vibe de Mirror´s Edge.

          CONCLUSÃO

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          Mirror´s Edge: Catalyst é uma obra que transpira personalidade invejável.

          Indo contra tendências do design moderno e apresentando um universo, que por estética apenas, já vale a visita, o jogo ainda consegue prender com uma jogabilidade que, apesar de não se mostrar complexa, é absurdamente intuitiva e perceptivelmente natural.

          Ainda que não tenha a mais trabalhada das histórias, a fundação aqui estabelecida para Faith é no mínimo o suficiente para me fazer querer acompanhar a jovem em outras aventuras. E realmente espero que tenhamos a chance para tal.

          Se você quer ver originalidade na indústria – especialmente em jogos grandes assim – Mirror´s Edge: Catalyst é uma obra que merece seu apoio.