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Por que The Witcher 3 é provavelmente o melhor RPG já concebido

Os role playing games, popularmente conhecidos como RPGs, tem como principal característica o desempenho do papel de algum personagem pelo jogador, sendo que este possui a seu dispor decisões capazes de alterarem o rumo e o escopo da narrativa na qual participam. Este é o princípio básico dos clássicos RPGs de mesa já existentes há décadas.

É gratificante perceber que os videogames adaptaram os RPGs para si e no processo até fortaleceram o gênero, uma vez que o sentimento de agência advindo dos RPGs é mais que perfeito para uma mídia embasada na interatividade do jogador.

Exemplos de RPGs no mundo dos games que obtiveram extremo sucesso não faltam: The Elder Scrolls, Fallout, Dragon Age e Mass Effect são amostras grandiosas do gênero no Ocidente, enquanto Final Fantasy, Chrono Trigger e Persona são algumas das pérolas dos chamados JRPGS, ou RPGs orientais.

A CD Projekt RED, responsável pela série The Witcher nos games (inspiradas na saga de livros polonesa de Andrzej Sapkowski) já tinha demonstrado um pouco de seu talento na concepção de jogos no gênero com The Witcher e The Witcher 2: Assassins of Kings, mas é agora com The Witcher 3: Wild Hunt que a produtora veio realmente a ditar as regras sobre o jogo.

O resultado? Aquele que é provavelmente o melhor RPG já concebido até hoje.

O porquê?

Um RPG realmente polido

Apesar de amar os RPGs da Bethesda – normalmente meus favoritos – se há algo que é justo apontar sobre estes é que existe uma certa “ausência” de polimento na apresentação dos mesmos. Não me entenda mal. Fallout 3 era até pouco tempo o melhor RPG que já tinha jogado (Skyrim também estava por ali). Apesar disso, os colossos da Bethesda sempre faltaram um pouco na apresentação visual e no polimento mecânico, em especial no que diz respeito às mecânicas de combate, sempre simplórias e que beiravam o “tosco”. Essa falta de “afinação” era até aceitável devido à escala e a diversidade de sistemas com os quais os jogos contavam.

Porém, é aí que a mais nova obra da CD Projeckt já começa a se destacar.

The Witcher 3 possui toda a escala e grandiosidade que um Elder Scrolls ou um Fallout tem, sem por isso faltar com a qualidade nas outra áreas do jogo.

Seja em gráficos (estes absurdamente belos), em jogabilidade – com um excelente sistema de combate – ou na simples travessia pelo imenso mundo, The Witcher 3 constante e consistentemente impressiona no departamento técnico, raramente tendo sua performance prejudicada por sua grandiosidade.

Uma narrativa com ritmo adequado

Um dos principais problemas em se contar histórias em jogos de mundo-aberto é a dificuldade em se manter a história devidamente espaçada/ritmada. Nos RPGs esse problema é ainda mais agravado, uma vez que a quantidade imensa de side-quests podem, com facilidade, desviar a atenção do jogador da narrativa principal.

The Witcher 3 faz um trabalho particularmente eficiente nesta área.

Ainda que não exista uma progressão da narrativa perfeita ao longo da trama– em especial no que toca a busca por Ciri que toma parte no 1º ato da história, que acaba por soar como uma extensa troca de favores até ter seu conflito resolvido – The Witcher 3 acaba por ir se desenrolando em uma narrativa que vai se tornando cada vez mais instigante e interessante, compelindo o jogador a avançar de forma inspirada até chegar ao fim da jornada de Geralt e Ciri.

A história do jogo acaba por, no final das contas, ser aquela mais focada que já vi contada em um RPG, conseguindo ser surpreendentemente empolgante e satisfatoriamente climática ao seu fim.

Vale apontar também que a CD Projekt fez um belíssimo trabalho em conceber uma história que consiga ao mesmo tempo abranger escala de uma narrativa épica e contar uma história humana com personalidades memoráveis (um dos pontos discutidos mais a frente).

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Decisões realmente ambíguas

Normalmente quando dispostas ao jogador, as decisões nos RPGs (ou seja o gênero que for) costumam se alinhar no “Preto e Branco”, isto é, escolhas diametralmente opostas uma a outra, sem espaço para interpretações sobre suas consequências.

Em The Witcher 3 porém, as coisas funcionam de forma notavelmente diferente.

As decisões que Geralt toma ao longo de sua jornada podem afetar gravemente o destino do mundo e das pessoas a sua volta. Porém essas decisões não são postas de forma que suas consequências fiquem aparentes logo de cara, e muitas vezes as sequelas só aparecem horas depois das escolhas feitas.

Da mesma forma, vale notar que é genial a forma como a CDPR interliga as side-quests com a história principal do jogo, sendo possível que o destino da narrativa principal seja alterado drasticamente de acordo com suas decisões em histórias paralelas.

Colocando o jogador frente a escolhas que constantemente exigem reflexão, sejam por questões morais ou de preocupação pessoal, The Witcher 3 é o jogo mais flexível do ponto de vista narrativo que já joguei, e é fascinante discutir as decisões com outras pessoas que jogaram o game e perceber o quão diferente a história de Geralt pode se desenrolar dependendo de como aproximada.

Personagens humanos e complexos

Antes de jogar The Witcher 3 admito que não imaginava que um jogo com tantas escolhas e bifurcações para sua história poderia contar com um elenco de personagens interessantes e complexos, muito menos um RPG de tal magnitude.

Apesar de amar Fallout 3 por exemplo, confesso nunca ter me sentido emocionalmente ligado a trama do jogo. O motivo? O jogo nunca me deu razões para me importar com seus personagens ou seus dilemas pessoais, uma vez que estes eram sempre apresentados de maneira unidimensional e impessoal.

Em The Witcher 3 isso não acontece.

Ao longo da jornada de Geralt conheci personagens com legítimas personalidades, com dilemas humanos, relacionáveis e pessoalmente complexos.

Destaque especial para as companhias femininas do protagonista. Ciri, a “filha” de Geralt, se tornou uma de minhas personagens femininas favoritas que já vi em um game, conquistando com seu carisma, charme e força pessoal, no processo se apresentando como uma mulher fascinante e complexa (me fazendo desejar até mesmo um jogo protagonizado apenas por ela).

Yennefer, paixão antiga de Geralt, também logo conquista o coração do jogador. Apesar de inicialmente aparentar apenas “carrancuda”, Yen logo ganha traços de complexidade, se tornando uma personagem verdadeiramente cativante ao longo da jornada.

Triss Merigold, outra paixão do passado de Geralt, é outra cara do elenco feminino da história que logo conquista a simpatia do jogador, no final das contas contribuindo para o crescente dilema de Geralt entre esta e Yen (o ideal era ficar com as duas…).

Geralt de Rivia também merece destaque como um protagonista cativante e ao mesmo tempo badass que, constantemente colocado frente a decisões que ressaltam sua personalidade profissional, demonstra traços de personalidade de um homem já há muito esgotado por seu demandante estilo de vida como um Bruxo (ainda que demonstre uma interessante afeição pela profissão).

No final das contas, a CD Projekt Red merece aplausos por ter conseguido conceber uma história de fantasia, envolvendo monstros, guerras, política e tudo mais e, ao mesmo tempo conferir um caráter de pessoalidade e humanidade à jornada.

Já tendo jogado minha relativa parcela de RPGs, posso dizer que nunca fui tão agradavelmente surpreendido por um jogo do gênero como fui com The Witcher 3: Wild Hunt.

Vale lembrar que Fallout 4 está com data marcada para este ano (10 de novembro) e promete todas as melhorias que a série merece (gráficos, jogabilidade e uma história mais pessoal), mas até lá, The Witcher 3 senta confortavelmente no trono como o melhor RPG que já tive o prazer de jogar.

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